SAÚDE+

SAÚDE+

                                                                                 por Danielle Amoêdo

Saúde Mental
Certa vez numa consulta perguntei a uma senhora de 101 anos qual o segredo da longevidade. Acho que ela não aguentava mais essa pergunta mas respondeu com a maior simplicidade : “Todos os dias quando acordo, olho no espelho e digo que hoje será o melhor dia da minha vida“. Essa lição foi um divisor de águas para qualquer problema que eu viesse a encarar dali por diante. Que maravilha poder exercitar diariamente essa sabedoria, não é? Minha cliente, mesmo com essa afirmação, por várias vezes teve péssimos dias, viveu luto por esposo, filho e pessoas queridas, passou por doenças, com certeza muitas decepções, porém no dia seguinte estava lá dizendo pra ela mesma que teria o melhor dia da sua vida.

Quando o assunto é saúde mental, o foco está na nossa capacidade interior de nos recuperarmos dos fatos inesperados a que somos submetidos em diversos momentos das nossas vidas. O maior objetivo desse processo é que o restabelecimento aconteça com o menor impacto possível. Que possamos desenvolver nossas habilidades de superação e aprendizagem sem a consequência de uma pancada emocional negativa que acabe evoluindo para uma patologia psíquica.  

Cada experiência, cada fase que atravessamos, nos faz enfrentar situações e vivências com particularidades próprias, sejam fáceis ou difíceis. A forma como encaramos cada momento nos moldará no que se refere ao equilíbrio das nossas emoções e reforços das bases psicológicas. 

A transição de cada etapa da vida às vezes se apresenta numa forma de conflito, o que pode trazer sofrimentos. E esses sofrimentos podem necessitar de algum suporte especifico, médico ou terapêutico. Na ótica de quem como eu dá consultas e escuta inúmeras histórias diariamente, o caminho seria buscar uma base emocional saudável para o enfrentamento adequado de qualquer obstáculo. 

Com o passar dos anos -e os anos sempre passam, para todos!- é comum fazermos balanços do que vivemos e o que aprendemos com nossa experiência. O jeito de encarar essas vivências é muito individualizado e cada um envelhece de forma própria e com necessidades específicas.

Isso deveria ser recebido de forma natural. Mas nem todos se preparam ou aceitam esse caminho de transição que pode se tornar algo doloroso emocionalmente, trazendo sequelas negativas. 

Entendo como muito importante que cada um reflita sobre suas habilidades para a ressignificação de experiências. Preparei algumas questões cujas respostas poderão auxiliar na avaliação do estágio em que se encontra nesse particular. Se detectadas, ainda há tempo de exercitar a melhora das possíveis fraquezas:

  1. Como foi encarado cada momento conflituoso e de aprendizado na sua vida?
  2. Suas concepções espirituais, suas crenças, tiveram interferência sobre seu momento atual? Isso foi positivo ou negativo?
  3. Suas relações sociais foram alteradas com o passar dos anos ? Se sente mais sozinho (a) atualmente? 
  4. Como suas perdas interferiram na pessoa que você é hoje? Possui algum trauma não superado? 

Não é porque tivemos longos momentos difíceis como luto, perda de emprego, desenlaces afetivos, que vamos ser totalmente melancólicos ou depressivos.

Devemos sempre pensar no para quê e não no por quê estamos vivendo determinada situação, seja ela boa ou ruim.

É imprescindível que nos permitamos ser cuidados e nos cuidar também. Sabemos que até para cuidar dos outros precisamos, antes, estar bem com nós próprios.

O entendimento que cada um tem sobre si é o ponto chave que desencadeia ou não a aceitação do que se está vivendo. A anulação da compreensão desse processo poderá gerar impactos negativos. Nossa resiliência será fundamental neste momento. 

O cultivo das relações interpessoais, socialização, a não infantilização das atitudes, nos permite um prolongamento da qualidade de vida emocional. Sabemos que isso é um hábito e, se não o adquirimos até aqui, por que não começar agora mesmo?

Parece inacreditável mas muitas vezes não nos julgamos dignos de momentos felizes. E, se não estivermos abertos a eles, aí mesmo é que não vão encontrar espaço para entrar. Para tudo na vida é preciso de um pouco de calma. Mas antes e acima de tudo é preciso ter fé, saber que é possível e assumir uma atitude receptiva.

Sempre digo que devemos ser mais generosos em relação a nós mesmos, esperar menos e agir mais. Um café com amigo, um trabalho voluntário, a leitura de um bom livro, uma crença que nos conecte com o plano superior, o não julgamento das próprias atitudes… são tantas coisas que podem nos trazer felicidade!

Vamos começar a refletir sobre isso? Colocar no papel o que nos faz felizes?

2021 está  próximo e seria um excelente momento para exercitarmos nossa resiliência a tudo a que fomos submetidos em um ano tão atípico como 2020.

Não podemos esquecer que os anos passam mas a idade da nossa mente,  dos nossos pensamentos, decorre da forma como absorvemos e encaramos tudo ao nosso redor. Resiliência e ressignificação atrairão as melhores energias para o período que se inicia. 

Que 2021 seja esplêndido para todos nós!

Danielle Amoêdo (contato@danielleamoedogeriatria.com.br/ www.danielleamoedogeriatria.com.br) é médica pela Fundação Oswaldo Aranha (UNIFOA/ Volta Redonda), pós-graduada em Geriatria e Gerontologia (UFG), especialista em Envelhecimento Ativo. É Coordenadora Médica no Programa de Assistência ao Idoso (Grupo Notredame Intermédica) e atende em consultório particular. Falará conosco mensalmente sobre saúde e os meios e modos de viver qualquer idade sempre da forma melhor e mais saudável possível.

Um comentário em “SAÚDE+

  1. Ótimo texto de reflexão Dra Danielle! Principalmente pelo momento delicado que estamos vivendo atualmente! Parabéns! Amei!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Open chat
1
Olá, quero seguir o seu blog.