O luto nosso de cada dia

O luto nosso de cada dia

“Freud chamaria de terror o momento em que estamos vivendo, o estado de perigo e que nos encontramos sem estarmos preparados para ele”. É assim que a psicóloga e psicanalista Cleunice Menezes se refere a esse pico de emoções e sentimentos a que fomos levados quase que de um momento para o outro.

Convidada a nos falar sobre o luto, começa dizendo que a morte é “uma das experiências mais lindas e enriquecedoras por conter em si tantas transformações, sempre tão cheias de amor”. Mas reconhece o terror do luto que cerca os que estão perdendo os seus entes queridos nesse momento extremo de pandemia, sem despedidas,  sem últimas palavras, ritos de passagem, com partidas surpreendentes e dificílimas.

Explica que o luto vai bem além da perda por morte, é um processo que ocorre quando há uma separação brusca, perda de emprego, de vínculos.

Com o coronavírus, “vivemos um luto atrás do outro, perdemos nossos passeios, encontros, trabalhos, companhias, festas, férias, enfim. Estamos enfrentando rompimentos diuturnos e todos os sentimentos que permeiam essas perdas são o que chamamos de luto. Mas nesse caso, há muita beleza embutida pelas inevitáveis transformações que daí decorrem, pelas descobertas, pelo renascer”.

Ela conta que, outra noite, sua mãe ficou acordada até as 3h da madrugada porque estava assistindo a um show de um sertanejo e disse que estava tão bom que nem quis ir dormir. “É uma senhora, a partir de um certo horário tem sono, quer voltar pra casa. Mas foi levada a descobrir um novo prazer, vencer os seus limites”.

“Mesmo dentro desse momento tão delicado e difícil, as pessoas estão buscando iscas novas nas suas vidas, aprendendo com elas próprias, se reconhecendo, se conhecendo mesmo. Tentam ir atrás do que gostam, do que lhes dá prazer. Até mesmo sem muita consciência disso, procuram se desvendar, se soltar e isso é um presente dentro desse luto todo. Eu me perco e eu me ganho, me refaço, cresço”.

VIVER O TEMPO PARADO

Cléo desenvolveu a teoria do “tempo parado”. É um tempo chapado, sem interação. “Fica tudo igual, mesmo que você faça coisas, se ocupe, não tem respiro. O próprio vídeo é parado! O que movimenta é estar junto, abraçar, conversar, dar risada. Você assiste a um comediante… ele está lá, fala coisa engraçada, você ri aqui. É rir também mas não é rir junto, é menos gostoso”.

“As lives amenizam mas não impedem a tristeza desse momento. Tem Roberto Carlos no Dia das Mães mas não tem o almoço do dia das mães. Temos que dar um jeito de deixar isso tudo menos triste, levar de uma forma mais saudável”. 

Para tanto entram algumas dicas nem sempre tão fáceis de serem entendidas. Tem de ter rotina mas tem de ter surpresa, novidade. 

“A rotina tem de ser estabelecida porque ela dá a sensação de que você está vivo, tem coisas a organizar, a fazer… Mas precisa descobrir coisas novas, aprender coisas novas, fazer crochê, inglês, olhar pra si e fazer algo inusitado, diferente. A música ajuda, acalma, traz reflexões, faz querer coisas novas. A música ressignifica as coisas, experiências que você  já passou. Nesse momento, quanto mais música melhor”.

Ela explica que, ao estabelecer a rotina você cria um fluxo mas, ao fazer coisas novas, encarar aprendizados, você vê o progresso e se sente em movimento. E sempre com amor. Com muito amor.

“Só tem um jeito de passar por tudo isso um pouco mais saudável, diz ela. São as relações, é o amor. O amor é o único que pode curar essas feridas todas que a pandemia deixou. Não tem outro jeito… todo tipo de amor, a começar por você próprio, por você tentar se amar, aceitar aquelas coisas que você não gosta… pensar em você, o que quer fazer da sua vida”.

A HORA É AGORA

A psicóloga orienta que o grande lance é não deixar para depois. Trazer o que é possível para agora. Diz que tem que sonhar, ter desejos, fazer planos mas trazê-los o mais próximo possível. 

“Assim, por exemplo, quero ir para a Grécia depois que a pandemia acabar. Sim, mas começa agora! Grécia por quê? Porque tem os deuses, então vai estudar os deuses já, ler, ver filmes, documentários, aulas. A internet nos permite tudo isso. E desse jeito você vai vivendo os seus sonhos, os alimentando desde já”.

“Aquele amigo que você não vê há 20 anos… lembrou? Deu saudades, liga já. Não é perfeito, deixa a desejar, mas é muito melhor que nada. Faça agora, faça de outro jeito. Não é simples, não é fácil mas dá pra fazer. Criar um movimento no não movimento. Sentir um progresso. Coisas que inspirem, façam movimentar, procriar, construir”.

Sobre o cansaço extremo que tanta gente tem se queixado, Cléo diz que ele denota falta de criar, de produzir. Falta de algo que te pegue de surpresa. Explica que precisa dar uma quebrada no fixo interno, dar um respiro e o cansaço vai aliviando. Trata-se de cansaço emocional e para afetar o emocional tem que enfiar algo novo, de alguma forma. Que seja uma língua, um sonho. 

Chama atenção sobre a importância de se emocionar, de chorar. “As pessoas têm medo de se emocionar, acham que vão se deprimir e é o contrário. Quanto menos emoção, menos choro, mais chance de depressão. Agora é hora de segurar a barra? Ser forte? Ser firme? Tudo bem, mas assiste a um filme e deixa sair a sua emoção. Chorei por causa do filme. É nada, ninguém chora por causa do filme, chora porque tá triste, porque tem o que chorar, porque tá difícil… se emocione através da emoção do outro”.

Quando me for levarei uma parte de ti e deixarei uma parte de mim em você.

Charles Chaplin.

“Tem que lidar sim com o lado cruel do luto porque ele está aí e não tem como fugir disso. É ruim, difícil de trabalhar mas tem a transformação e ela existe também. Esse luto não vai passar de um momento pro outro, não há essa possibilidade. Normalmente a sua duração é de um a dois anos. Por isso tem que tomar muito cuidado com esse momento que estamos vivendo”.

“As pessoas estão com muito medo. Primeiro foi difícil parar de mexer, de tocar, de abraçar. Quando isso passar, virá o outro lado, medo de voltar a tocar, mexer, abraçar. Vamos ter que viver todas as etapas para poder vencê-las”.

“Estamos falando do luto da pandemia mas a vida é uma sequência de perdas e ganhos. A hora da separação, da privação é sempre doída mas vem as compensações. É no sofrimento que se aprende, na angústia que a gente para pra pensar”.

“É um momento de crescimento emocional e de escolhas… até para sofrer a gente escolhe, claro que estou me referindo a uma escolha inconsciente. Tenho que ver como é que eu vou lidar com isso. Preciso me mexer, dar um passo a mais. Melhorar o tipo de sofrimento para poder sofrer de outra forma”.

“Estamos vivendo esse momento de terror sim, mas o luto não é só isso, tem todas as suas variações. Ele é também enriquecedor, transformador”.

N. da E. Cleunice Menezes é professora, psicóloga e psicanalista. Por 15 anos trabalhou em clínicas psiquiátricas concomitante ao atendimento clínico no consultório. Todo o seu conhecimento clínico está voltado às doenças da mente e à dependência química. Desde fevereiro integra um grupo de trabalho exercido voluntariamente junto a profissionais da área de frente no combate ao  coronavírus.

Um comentário em “O luto nosso de cada dia

  1. Quero parabenizar a Cleonice Menezes pelo texto tão esclarecedor do que estamos vivendo
    neste momento de pandemia
    Tenho um enorme respeito e admiração por ela
    realmente ela faz acontecer com sua grande capacidade como psicóloga
    Obrigada Angela por nos proporcionar leituras que nos confortam e nos ensinam muito
    beijos

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