NO FLUXO, SEM MEDO

NO FLUXO, SEM MEDO

À pergunta “o que você quer ser quando crescer”, Teresa respondia na boa que queria “ser homem para guiar trator”.

As coisas não aconteceram exatamente assim mas ela segue fazendeira e, sim, dirige trator. Na primeira vez foi escondida, no meio da noite, através de um super plano junto com o seu primo querido. Foram pegos, postos de castigo. Mas ela continuou na sua, querendo o trator.

Teresa Bravo Caldeira Gabriel nasceu e cresceu na fazenda em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul. Vivia na natureza e da natureza, subia, pulava, corria. Não tinha medo. Seu pai sempre foi seu apoio silencioso. Na medida do possível, claro, ela queria, ele deixava.

Conclusão, cresceu sem medo. Cresceu em paz. Ela não é necessariamente de aglutinar, ficar promovendo. Mas os esportes (todos os possíveis) a levam a isso, a fazer grupos, viver com pessoas, interagir. Sente-se absolutamente confortável entre seus companheiros de esporte, aproximados pela ação. O prazer que disso decorre é democrático e todos saem bem sem muito falatório.

Ela não é, no propósito, uma promotora da paz entre seus pares. Mas se preocupa em viver bem e, para que isso aconteça, acaba como que sendo uma facilitadora desse bem nos grupos em que atua.

Tudo sem muitas palavras. Na maioria das vezes, apenas as necessárias. E acaba dando certo.

Foi desde sempre uma destemida. Com dez meses andava, falava e não queria mais tomar mamadeira. Com um ano e oito meses resolveu que ia mergulhar. A piscina da fazenda não era de brincadeira mas um piscinão com trampolim e tudo. Aquele microsser anunciou que ia para a água sem a boia de braço e o pai achou que devia respeitar o curso das coisas. Ela subiu na prancha, mergulhou, voltou à tona e -de alguma forma- chegou até a borda. Simples assim. Na corrente da natureza.

Ia vivendo de forma livre e, dotada de indiscutível talento para as atividades físicas, tudo ia dando certo sem muito esforço. E ela foi crescendo, no fluxo, sem medo. Somavam 16 primos. Todos juntos, cresceram como irmãos e a avó aglutinadora proporcionava a farra toda.

“Esporte para mim é muito importante, gosto, tenho jeito, me viro de cara. Sempre foi fácil, nasci com a veia de esportista. Bicicleta eu andava desde sempre, montava a cavalo, mergulhava, nadava. Aos quatro anos aprendi a esquiar na água, meu pai me punha em pé na água, me segurava em cima. Depois, na escola, basquete, handebol, corrida. Sempre fui muito ágil. Tem ainda o esqui na neve, esporte individual, em conjunto, gosto muito de tudo”.

Decorre daí que, ao seu lado, você percebe que ela é da paz. Está na paz. E acaba por promovê-la ao seu redor sem que isso seja um propósito, uma meta.

Depois dos cinco anos de idade, por causa da escola, a família se muda para São Paulo. E ela continua vivendo na boa. Estudou pedagogia só pra ganhar carro que o pai impôs como condição. 

Conhece Eduardo e se casa depois de quatro anos e muito esporte. E assim permanecem até hoje, companheiros mas com vidas e até esportes bastante independentes, o que ela vê como fundamental para o seu casamento ter dado certo.

Começa a trabalhar assim que se casa e, em pouco tempo, entra no setor de aluguel de material para festas, quando se percebe uma boa vendedora, se dá bem e há 17 anos é dona da DaCasa, um endereço tão querido dos festeiros de São Paulo.

A isso se soma, desde que sua mãe morreu, a administração da fazenda, que volta à sua vida de uma forma um pouco diferente. Os esportes permanecem. E, soberano, o fluxo da natureza vai fazendo o seu caminho na vida da Teresa.

Segue brincalhona, divertida, na ação. Silenciosa, às vezes muito quieta. Curte seus companheiros de contexto: dos esportes, do trabalho, da família, da vida social. 

Tem um jeito especial de plantar o que quer, intermediar pela paz. Eliza, sua melhor amiga, prima e companheira de bike, diz que ela é administradora de crise. Acaba conseguindo boas soluções, na tranquilidade. O mais incrível (ou o mais crível?), consegue exatamente o que quer.

“O esporte ajuda a fazer turma, não precisa nem ser amigo”. Com o grupo da bike, por exemplo, já estão na oitava viagem para a Europa. (desse grupo faz parte também a sua prima Augusta, que já conversou com o blog em Minha vida antes e depois da bicicleta). E é exatamente com elas, Les Vélos que, no fluxo, na paz, Teresa virou rainha. Ou se impôs rainha? Mas o mais engraçado é que o seu posto acabou aceito e divertidamente respeitado por todos.

“Eu não sou competitiva. Gosto de fazer e fazer bem. Mas como esporte é o meu dom, vou bem sem criar com isso um problema”.

 “Acho que é mais ou menos a mesma coisa quando a Eliza diz que sou administradora de crise. Sempre tento arrumar, pôr pano quente, não quero ninguém brigando com ninguém… Vou ver, vou conversar com essa, com aquela, ver o que consigo”.

“Acho até que esse jeito de conciliar surgiu pelo trabalho. Mexo com muita mulher, aprendi a assumir a culpa totalmente, digo que a gente errou, pode deixar que vou mandar arrumar e aí elas ficam contentes. Estou cansada de saber que são elas, muitas vezes, que erraram”.

Encerra contando o caso de uma cliente portuguesa que brigou muito para se defender e, ao vê-la assumir a responsabilidade pelo problema, retrucou “ô Teresa, você é muito educada, pois eu sei que a culpa foi minha…”.

“Não gosto de reclamar, sou meio Poliana. Bateu o carro? Poderia ter sido pior… Ser paciente, conciliadora por quê? Acho que nasci do bem”.

Ao acompanhar as suas reflexões, insisto quanto aos benefícios do esporte e da natureza no bem-estar das pessoas, no fazer amigos e entendo que, nesse quesito, o que conta é a natureza humana:

“Tenho muitos conhecidos, pelo trabalho, pelo esporte. Amigos são no máximo uma meia dúzia. E eles são da vida! A Eliza é a minha melhor amiga e somos pessoas totalmente diferentes, não temos nada a ver…. ela é toda certinha…”.

Não importa quantos anos a Teresa tem. Para ela a idade pouco significa.

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