FAZER SEXO DÓI?

FAZER SEXO DÓI?

Nada menos que 40% das brasileiras afirma sentir dor no momento da relação sexual. E ela tem sempre a ver com questões educacionais, psíquicas, seja totalmente no caso das dores primárias (presentes já na primeira relação) ou parcialmente quando se trata da que surge no decorrer da vida sexual. Mesmo no caso dessas últimas, ditas secundárias e que podem ter causas orgânicas, o fator psicológico se manifesta na vergonha de dizer para o médico, no ignorar o problema até que ele se torne mais grave ou mesmo no sentir a dor e achar que é normal, já que “fazer sexo dói”.

A psicóloga e mestre em sexologia Ana Luiza Fanganiello afirma que podemos relacionar essa dor à educação. Ela conta que no  seu grupo de mestrado, dedicado a estudar mulheres que não conseguiam ter nenhum tipo de relação (antigo vaginismo hoje chamado de DGP-Dor genito pélvica), 100% delas tinha recebido uma educação rígida, religiosa ou não, velada ou declarada.

Começamos a nossa conversa com um brainstorm sobre mulher madura gostar ou não de sexo. Em poucos minutos, para minha total surpresa, estávamos falando de jovens, seus medos, tabus, carências. Em todas as idades, um traço comum: a falta de preparo, de educação sexual. O que talvez até reforce os mitos e tabus que permeiam e adoecem algo que pode e deve ser bom e saudável.

A sexóloga chama a atenção para o fato de que a educação sexual sem orientação mexe muito com as pessoas ao longo de toda vida. “Quando falamos de dor na relação, de não ter orgasmo, de não ter desejo, a gente está falando de uma sexualidade disfuncional. E vai chegar o momento em que ela cobra o seu preço que normalmente é ‘eu não me interesso mais por sexo, não me interesso por nenhum tipo de relação sexual porque não conheço meu corpo ou tenho dor ou não tenho prazer, porque o meu parceiro ou parceira já não está mais tão interessado, não tenho mais parceiro ou nunca tive e não vou procurar’ e assim por diante até chegar na acomodação, ´não preciso mais de sexo, desisto´.

Isso está sendo relatado cada vez mais cedo, a partir dos 20 anos de idade, de dizer ‘tô fora, não quero’.

Diz que nesse ponto podemos entrar num outro lugar, o dos atuais assexuais, que não querem mais vida sexual e não querem ser estudados. Eles têm vida afetiva mas não sexual. Eles se relacionam afetivamente, podem até ser casados mas não se relacionam sexualmente ou não têm interesse pela sexualidade. O número deles está crescendo muito entre os bem jovens. Sua propaganda é “prefiro comer bolo” e a sua bandeira é um pedaço de bolo. Aí vamos entrar num outro aspecto que é a vida afetiva…

Educação sexual adequada

“Tivemos um hiato em São Paulo, nos anos 90, lembra ela, com uma diretriz de educação sexual mais aberta (durante a gestão da Marta Suplicy) e aí pode-se ver claramente que as pessoas daquele momento têm um pouco menos de disfunção mas chegavam em casa, no contato com os pais, a coisa não ia muito pra frente. O importante é poder se questionar, falar sobre isso, compreender onde a gente vai. Precisamos ter educação sexual na escola porque é por aí que nos formamos. E é por aí que teremos pais e mães que vão educar os filhos dentro de casa. Infelizmente, o que temos e vemos hoje é que vamos perpetuar essa falta de educação. Até dá para compensar de alguma forma mas a educação adequada na escola é muito importante e o que é ensinado atualmente é muito ruim”.

Sobre a dúvida que se impõe já que o sexo é natural, nascemos com ele, todos têm, por que não pode ser desenvolvido de uma forma também natural sem que fique doentio, Ana Luiza diz que até daria, deveria ser assim se as pessoas permitissem, se não tivéssemos um mundo permeado por tantos tabus, tantos preconceitos, medo do pecado, da reprimenda, de sentir prazer. As castrações religiosas são mais fortes do que gostaríamos de reconhecer, do que se percebe.

“Vem o medo de ter prazer. Daí eu me contraio e tenho dor porque o que vão pensar de mim se levo essa coisa toda numa boa? Vou me constrangendo, deixando de lado, esquecendo que a sexualidade existe. Chega-se a movimentos organizados como o Eu decidi esperar, que prega a castidade entre os jovens adultos para que não transem, não se masturbem, não tenham nenhum tipo de prazer sexual antes do casamento. E aí, depois do casamento, você não consegue ter prazer, tem dor e o que você faz?”.

A própria Ana Luiza conta que não é nem batizada, seus pais não tiveram religião clara. A despeito disso, sente a culpa cristã dentro dela. Teve uma funcionária na casa que acabou enfiando um monte de bobagem na sua cabeça e por um tempo ela só queria tomar banho de biquini porque tinha medo que Jesus chegasse e a visse sem roupa. Hoje ela dá risada deste fato. Mas quantos desvios como esse podem estar mais perto do que pensamos?

Esclarece que a sexualidade saudável é quando você faz as suas escolhas e está bem com elas, quando não tem uma questão de sofrimento, de não querer. Saber o que você gosta, o que você quer, apropriar-se do seu corpo e poder escolher o que fazer com ele. Fazer sem consentimento, sem pensar no que está fazendo só porque “transo com o meu marido para ele não transar na rua”, isso é uma sexualidade não saudável.

“Vivemos num mundo em que queremos fazer escolhas mas elas são angustiantes e então eu entro numa religião que faz as escolhas por mim”, lamenta.

O sexo e a sexualidade são repletos de vergonha, vergonha de falar com o médico a respeito, de falar com a paciente, falar com a mãe, com o filho, a filha, vergonha de dizer que gosta, de dizer como, vergonha de ser mal interpretado, de ter cheiro, vergonha de ser velho.

“É preciso entender que a sexualidade faz parte do seu bem-estar, é parte da vida da pessoa, não é separado, seu prazer também é seu. Tem de ter o seu prazer muito bem compreendido pra saber se você quer ou não tê-lo. Prazer sexual não é apenas o da penetração, pode ser o prazer do toque, da excitação, do estar com o outro, ele não é apenas genital”.

Experimente o seu corpo

“Outra coisa é o domínio de si, se apoderar da sua inteireza. A masturbação não é apenas uma opção a não ter parceiro, é uma oportunidade de você ter prazer com você, de estar ali com você, ter aquele tempo com você, para se perceber, perceber o seu corpo. Experimente, se permita e experimente. Experimente o seu corpo, não fique preso à mesmice, entenda os potenciais que você tem. E ter, acima de tudo, o direito de não gostar. Permita-se não gostar mas depois de tentar. E aí tira da frente. Vê o que faz sentido pra você, opta, seleciona. Isso é ser dono do seu nariz”.

Enfatiza que há possibilidades tanto para as pessoas se educarem quanto para educar os outros. “Antes de tudo se conheça, perceba os seus limites, porque não adianta nada eu falar uma coisa pra criança e expressar outra. A questão ambígua é percebida e confunde a criança”.

Para quem achar que está muito difícil, sugere livros como dois da Ester Perel  “Sexo no cativeiro” e “Casos e casos” ou mesmo o “Sexoterapia” da Ana Canosa. Existem podcasts, “o nosso por exemplo” (coletivo ser, detalhado em seguida), profissionais que se pode entrar em contato, colocar dúvidas e receber respostas.

Peço uma dica e a resposta é rápida. “Tem mil formas de se informar, hoje está muito mais fácil. Googar o quê? Sugiro “abertura sexual”, abertura para você se entender. Pode até dizer eu não quero isso mas sei o que é isso, conheço, escolhi consciente. Passei por isso e não quero, não gosto.. Você precisa ter as coisas como escolha e não como falta de opção”.

“Se você se dispuser a conhecer, experimentar, ir até um pouco além … conhecer mais, isso pode ser com 8, com 18, pra você, como 28, 38 pra educar alguém, com 58 pra viver melhor, com 78 pra continuar levando bem”.

Ana Luiza Fanganiello (@anafanganiellopsi) integra um coletivo que produz o podcast coletivo ser, o Instagram (@coletivoser) dão aulas juntos e tem também o site do coletivo. “O podcast é voltado para pessoas que queiram saber mais sobre sexualidade. Somos dois psicólogos, dois psiquiatras e uma ginecologista, a gente se juntou a partir da academia para passar informação de qualidade sobre a sexualidade, falamos sobre tudo, educação sexual, trans, sexualidade na maturidade, chamamos convidados, o último falou sobre saúde da vagina, dura uma hora”. Todos os podcasts antigos estão à disposição na Apple play, no Spotify, no youtube, COLETIVO SER, “é para todos os públicos, se não tiver lá, pede e a gente fala a respeito”.

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