Eternamente incomodada, eternamente mutante

Eternamente incomodada, eternamente mutante

                   por Alyne Shiohama Novello

Entre minhas conversas com a Ângela, ela me pediu que escrevesse sobre mim. Primeiro surpresa, acabei achando legal, afinal não sou incrível mas tenho as minhas vivências, e logo pensei que seria fácil. Depois, mergulhei numa autoterapia de me sentir um pouco dura, um pouco triste ou até feliz demais pra ser verdade.

Tenho pouca memória da minha infância, mas nunca fui uma criança padrão. Me lembro de ler aos oito anos a Declaração de Direitos humanos e espalhar os artigos pela casa em formato de bilhetinhos. Meu sonho era ser diplomata, ou juíza, ou médica… era qualquer coisa que me fizesse parecer inteligente, afinal como boa libriana, meu sonho era ser intelectual.

Nunca me encaixei muito na minha família e não conhecia o meu pai, que fui descobrir com 14 anos. Bingo! Era igualzinha a ele, mas assim como eu, ele preferia os estudos à família e alguns anos depois preferiu viver sua vida de médico, do que ser um pai modelo. Desde então nunca mais o vi.

Não me importei muito, me acostumei a viver deslocada também. Aos 18 fiz a minha mala e saí da casa dos meus avós onde vivia, e fui ser livre. Tinha uma mala e só, não era muito próxima dos meus parentes, apesar de amá-los, e nunca me orgulhei tanto de mim. Era o meu mundo em uma mala e a liberdade que eu sonhava em ter. Morei com amigos, no centro budista, mudei de cidade. Fui intensa, mas sempre muito responsável.

Para estudar, voltei para São Paulo e conheci minha cara metade, completamente diferente e que até hoje é o meu marido e companheiro nas loucuras da vida. Aos 22 engravidei, numa gestação impossível de dar certo, segundo a medicina. “Me desculpe, mas os médicos não conseguem prever milagres”, disse o médico no dia do parto. Foi daí que entendi pra que me serviriam todos os acontecimentos passados e a braveza pra viver herdada: eu tinha 23 anos e um bebê com meio coração nas mãos. Só sangue frio, coragem e um pouco de briga faria tudo funcionar. Meus 23 anos biológicos eram muito pouco pro que eu precisava ser.

Foram oito meses de UTI, três cirurgias, médicos internacionais e tantas pessoas que não conseguiria contar. Foi muito choro, briga e uma vida assim, um dia por vez, uma vitória por dia e um fim com um luto de choro único. Sempre fui focada mais em soluções que problemas, e sabia que muitas lágrimas já não seriam mais solução para mim. O jeito era viver, já que foi me dado esse crédito.

Semanas depois eu estava de volta ao trabalho e logo fui trabalhar no setor bancário com tecnologia e investimentos, que eu adoro! Como boa workaholic que sou, sempre voei no trabalho. Descobri que mais que ser intelectual, eu adoro estudar e conhecer coisas novas, principalmente pessoas. Tenho dificuldade em me definir na carreira, como uma especialista em uma coisa só, mas sempre fui aquela que sabe um pouco de tudo ou que conecta as pessoas e, mesmo sem saber, conheço sempre quem sabe. Por sorte, elas não só sabem das coisas como são incríveis comigo.

Voltei pra faculdade, estudei outros idiomas e viajei bastante. Conheço muitos países (menos que a Ângela, certamente, mas um dia quem sabe eu chego lá). Mudamos o ritmo de vida, de casa, de carro, mas as pessoas eu sempre conservei. Em 2013 nasceu o Renzo, meu filho que tanto me completa quanto desafia a minha intensidade. Sou um pouco dura mas bastante doce e todo dia aprendo um pouco. Aprendo que a minha relação com o meu filho pode ser diferente do que a que eu tive com meus pais, e que a relação dele com a família também pode ser uma história completamente diversa da minha. Mais leve, mais doce. E assim tem sido.

Em 2019, resolvemos mudar mais uma vez, e dessa vez de país. Fomos viver por um ano no Reino Unido, no interior da Inglaterra. Vivemos a nossa família, nos voltamos para nós mesmos e nossos objetivos, aprendemos mais sobre outra cultura e fui aceita no Mestrado na London School of Business and Finance, do qual me alegro e sofro um pouco todos os dias para dar conta desde então.

No começo de 2020 decidimos que era hora de voltar por questões pessoais, mas não contávamos com a pandemia nos desconstruir mais uma vez.  Comecei vivendo intensamente meus pequenos lutos diários da mudança, pois embora tenha grandes lutos me permito viver mais intensamente os pequenos, extamente como a Cleunice falou em sua matéria. 

Vejo que conciliar a família, maternidade e o meu lado intenso de trabalho e estudo hoje são o meu grande deleite e desafio de todos os dias. Sei que ser intensa em todos os sentidos podem custar muitas das minhas horas de sono. Acho um pouco prepotente da minha parte mas me identifiquei como perennial, sim, aos 35 anos. Sei que tenho muita coisa para viver mas assim espero ser: eternamente incomodada, eternamente mutante.

Um comentário em “Eternamente incomodada, eternamente mutante

  1. Me identifiquei muito com seu post! É bom saber que outras pessoas também são eternamente incomodadas e mutantes…E, que, não se encaixar em uma família, apesar de ama-la, pode ser uma oportunidade de crescermos em liberdade. Gostei demais da sua escrita. Parabéns e sucesso.

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Olá, quero seguir o seu blog.