A coisa não acontece da noite pro dia

A coisa não acontece da noite pro dia

Andrea Buonfiglioli deu muito certo na vida. Executiva de informática, nunca sentiu falta de nada. Aprendeu com o próprio pai a construir a sua independência financeira, sempre trabalhou bem no Brasil e fora daqui. Casou, teve dois filhos “maravilhosos”, pôde encaminhá-los, morar bem e conseguir fazer uma poupança. Até que um dia isso tudo lhe pareceu não fazer mais sentido.

“A coisa não acontece da noite pro dia, diz. Vai rolando aos poucos. Comecei a olhar pra trás e ver que a minha vida, em termos de trabalho, já não valia mais a pena. Eu não estava tirando nada do meu trabalho, me sentia irritada com o mundo corporativo, esse mundo materialista”.

“É o que digo…a sementinha já vinha sendo construída desde antes… a minha irmã, suas preocupações com a preservação do planeta… a coisa do Victor, meu filho que rompeu com o mundo que tinha até então, jogou tudo para o ar….foi uma quebra de paradigma. Olhei para trás e disse não quero mais isso”.

“Com a minha irmã fui acordando para as questões de sustentabilidade que estamos vivendo. Sobre a importância de adotar pequenos gestos no dia-a-dia que terão impacto no futuro. Além disso, falamos muito sobre ter uma vida mais simples, usando menos recursos da natureza, sendo mais verdadeiros conosco mesmos, sem nos preocuparmos com aparências”.

“Com o meu filho Victor, a coisa toda foi menos leve. Aos 21 anos, cursando economia e trabalhando numa multinacional, largou tudo e foi para a Ásia buscar o seu jeito de viver. Na verdade, ao decidir, ele quebrou as minhas pernas porque rompeu com os padrões de vida que eu tinha: estudar, trabalhar em uma empresa nos moldes convencionais e construir a tal da independência financeira”.

Ser perennial não é produzir bijou na Ásia
ou ser executivo de multinacional.
Ser perennial é ter coragem de olhar pra dentro e se perguntar
“estou na minha?”, “sou feliz?”

“Fiquei louca, não ajudei em nada. Mandei ele se virar. Brigamos pois eu não concordava com aquela forma, queria que, ao menos, ele terminasse a faculdade… mas ele não tinha interesse algum em continuar nesse mundo, queria natureza, estava exausto de trânsito, de poluição, de São Paulo”.

Victor foi para o Nepal na época do terremoto, ajudar a construir casas. Foi passeando pela Ásia, se engajou em vários projetos até que descobriu uma arte, aprendeu e hoje faz bijuterias com pedras e prata, pedras e cobre. Tem uma vida modesta, não investe no futuro nos moldes tradicionais nem se preocupa com isso. Está feliz.

Aos poucos, mãe e filho voltaram a conversar. Ela foi para a Tailândia, passou um mês com o filho, dormindo no mesmo quarto, conhecendo lugares e pessoas que eram a vida dele.

“Eu já estava no processo… Vi que ele estava dando certo, que dinheiro não é tudo na vida. Ele vivia com uma mochila. Quando voltei pra casa e vi meu guarda-roupa com coisa pro resto da vida, aquilo passou a me incomodar. Foi ali que comecei realmente esse processo do desapego. Fui tendo uma vida mais simples, o que não significa uma vida mais pobre”.

“Tenho meus luxos, tenho uma poupança dos 35 anos que trabalhei. Gosto de comer bem, de um bom vinho. Comecei a dar valor às coisas que realmente são importantes pra mim, que me fazem feliz”.

Ser perennial é comprar bem, comer bem, viver bem.
Ser perennial é se reconhecer perdida quanto
ao futuro aos 55 anos e nunca ter
se sentido tão feliz em toda a vida!

Andrea procurou se entender, passou por um processo de coach e optou pelo mercado de arte, do qual sempre gostou como espectadora, como consumidora. Fez um plano de estudos, está seguindo, já descobriu algumas coisas que não quer mas não sabe ainda o que quer.

Tem apenas a certeza de que a “vida velha está encerrada”, que “aquele mundo não era mais meu. Estou 100% segura de que fiz o que tinha que fazer”.

“Engraçado -pensa alto- que eu estou num momento muito perdido da minha vida, aos 55 anos sem saber como vai ser… mas estou me sentindo muito feliz. Acho que nunca fui tão feliz na minha vida”.

Tenta explicar essa felicidade como “alguém que sabe que o universo está tramando pra me entregar o que mereço. Tenho estudado também a questão da feminilidade, do feminino sagrado. Estou refletindo sobre a minha espiritualidade, várias coisas aí que antes estavam fora do meu dia-a-dia, fora do meu escopo”.

“Hoje tenho tempo pros meus amigos, pra minha família, me sinto muito mais perto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos e isso tem sido muito bom. Com certeza, uma vida mais humana, menos materialista”.

Sua reflexão final ilustra o fato de que a mudança se faz nos detalhes. “Adotei uma vida mais simples, diminui meus gastos, revi alguns valores.  Já simplifiquei o meu guarda-roupa, diminui minhas compras que hoje são mais conscientes. Fiquei agora dois meses na Itália (onde estudou artes e aprendeu a falar italiano) no modo econômico que me satisfez muito bem, com uma malinha pequena, muito tranquila”.

E considera sobre a sua “insegurança tão segura”. “Hoje tenho muita liberdade para ser, estar e fazer o que eu gosto. O futuro? Quem sabe do futuro? Eu me sinto uma adolescente iniciando uma nova carreira, cheia de planos para o futuro”.

Não importa quantos anos a Andrea tem. Para ela, a idade pouco significa.

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