VIDA QUE TE QUERO VIVA

VIDA QUE TE QUERO VIVA

histórias da Pebble

Trabalhei durante muitos anos, cerca de uma década, em uma disputada empresa de e-commerce. Quando fui admitida já estava quase na casa dos cinquenta anos. Era um desafio e tanto. Além de ser recém-chegada tinha idade para ser avó da empresa inteira: do diretor ao faxineiro. Só perdia para o Ombudsman.
Também não havia sido forjada na cultura millenial; não tinha habilidade total na operação de sistemas eletrônicos, estava por fora das gírias, do dress code, das manhas sociais, da visão de vida da nova geração.
Fui me virando como pude e minha função foi sendo burilada até ser designada a comandar, de cabo a rabo, um programa de treinamento: tinha que colocar no papel tudo o que sabia e transformar aquilo em ferramenta de trabalho para duas centenas de jovens profissionais.
Eu dominava o conteúdo, da melhor qualidade, mas era preciso transformar esse conteúdo em algo extremamente atrativo para uma geração com a qual eu não tinha verdadeira conexão. E havia um agravante: a participação nos treinamentos não era obrigatória, o que significava que o quórum deveria ser conquistado.
Passei noites sem dormir.
Dessa vigília foi surgindo uma possibilidade: a criação de um personagem. A ideia tomou tal forma e se concretizou a tal ponto que sempre tive a sensação de que eu mesma nunca cheguei a por o pé em uma sala de treinamento naquela empresa. Quem entrava era, sempre, uma volumosa senhora alemã, de sotaque carregado, de hábitos rígidos, de voz forte, mas também atrapalhadíssima, com seus óculos de lentes grossas, meias elásticas e sapatos pesados.
Essa senhora frequentemente divagava em meio às questões mais polêmicas, se perdia em palavras, esquecia o que estava dizendo, pedia ajuda aos participantes na reconstrução de conceitos ou diretrizes…
Às vezes fazia provocações: duvidava que houvesse alguém que dançasse tão bem quanto ela, o que criava quase que instantaneamente um baile em plena luz do dia. Entre um conceito e outro  vinham os convites para respirar, alongar, relaxar, meditar. 
Havia aromaterapia, abraços, seções de música, o que invariavelmente levava a depoimentos pessoais de vida e trabalho. Foi um sucesso! As classes lotaram! Alguns chegaram a cabular trabalho para participar ( o que me rendeu um par de puxões de orelha)…
Então, já próximo aos 60 anos, chegou a hora de me aposentar, o que fiz com o coração lavado e uma certeza funda de dever plenamente cumprido. 
E hoje quando vejo amigos, jovens ou velhos, enfrentando situações difíceis e aparentemente intransponíveis penso comigo: tem saída. Basta acreditar em si e sentir alegria.

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