SEM LUCRO MAS COM MUITOS GANHOS

SEM LUCRO MAS COM MUITOS GANHOS

 por Luciana Monteiro

Mãe é mãe. Mas mãe pode ser mãe social também. Ou ainda, madrinha afetiva. E não vamos deixar de fora o padrinho afetivo e a família acolhedora. 

Neste artigo não trago um assunto que eu já tenha experenciado, mas dou um spoiler daquilo que estou profundamente tentada a fazer: praticar o apadrinhamento afetivo e, assim, me tornar uma madrinha afetiva. De batismo, já tenho seis afilhados. Por que não mais um? Só que agora afetivo.

Ser mãe social é diferente de ser uma madrinha afetiva. A primeira pode ser regida por lei e remunerada ou não, enquanto os afetivos são sempre voluntários. Porém, ambos exigem enorme responsabilidade sobre crianças e adolescentes que se encontram em entidades de acolhimento.   

Por força do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, as entidades de acolhimento diferenciam-se dos antigos orfanatos, os quais não são mais permitidos pelo caráter permanente.

Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, em 2018 eram 47 mil crianças e adolescentes vivendo em entidades de acolhimento no Brasil, sendo São Paulo o estado disparado com o maior número. Porém, o que mais me chamou a atenção foi a contrapartida de que apenas 8.420 crianças e jovens estavam legalmente aptos para o Cadastro Nacional de Adoção, ou seja, 17,8%. Ainda que os números não sejam tão fidedignos, a diferença é gritante e me convenceu da importância que mães sociais, famílias acolhedoras ou o apadrinhamento afetivo possuem, uma vez que o maior esforço deles é sempre para compor os laços de afeto – e saudáveis – com a família de origem dessas crianças e jovens.

Cada município possui autonomia para decidir como acolherá suas crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social ou abandono. Pode ser instituindo a chamada Casa Lar, que oferece acolhimento temporário em instalações físicas próprias ou cedidas, ou ainda em parceria com organizações da sociedade civil, as chamadas ONGs. E aí surge a mãe social, que tem a atribuição de, além de administrar o lar onde residirá com as crianças e adolescentes, lhes propiciar o surgimento de condições próprias de uma família, orientando e assistindo a todos.

Seja nas Casas Lares, seja através dos programas de famílias acolhedoras, as quais recebem a criança ou o jovem em suas casas sem se comprometerem a assumi-los, dado caráter temporário e, muitas vezes, voluntário, o papel social destas pessoas que têm a guarda provisória das crianças é primordialmente oferecer amor e cuidar delas que já tiveram seus vínculos familiares originais fragilizados ou rompidos, de maneira que se desenvolvam psicologicamente, fortalecendo a autonomia de cada um, o que será muito necessário, caso não retornem aos seus lares inéditos e nem sejam adotados antes dos 18 anos de idade.

Conheça emocionantes histórias de mães sociais através do trabalho da Aldeias Infantis SOS Brasil, que defende que “É possível existir um lar sem crianças, mas uma criança não pode crescer e se desenvolver sem um lar.”

Já o apadrinhamento afetivo, que também procura fortalecer o desenvolvimento integral da criança e do adolescente em prol da sua própria autonomia, é uma maneira de oferecer a oportunidade de convivência familiar a estes jovens, ampliando o apoio afetivo e social perdido pela ausência do vínculo original, já que muitas vezes as chances de reintegração ou adoção são remotas.      

O Instituto Fazendo História, por exemplo, tem um programa de apadrinhamento que propõe um suporte que vai muito além daqueles construídos dentro da instituição, trabalhando em parceria com as entidades de acolhimento municipais. A preparação para a aproximação acontece com ambas as partes, madrinhas e padrinhos e crianças e adolescentes participantes entre 10 e 17 anos através de encontros lúdicos e conjuntos, para só depois passarem a ser individualizados, conforme a empatia naquela primeira etapa.

Padrinhos e madrinhas encontram-se com frequência com seus afilhados, dentro e fora da entidade de acolhimento, podendo realizar programas juntos como ir ao cinema, fazer refeições, viajar tornando-se, assim, referência afetiva por um longo tempo para eles. Se você se interessou por este programa e quer saber mais e se emocionar com os depoimentos do apadrinhamento, como aconteceu comigo, assista fazendo história/apadrinhamento afetivo. Se é fato que o voluntariado transforma – e é! – imagine ver e viver de tão perto a enorme diferença que você pode fazer na vida de uma criança ou de um adolescente.

É importante informar, antes de qualquer tomada de decisão, que tais programas existem em todo o território nacional e que o papel da mãe social exige dedicação exclusiva às crianças, após um processo de capacitação que pode durar até dois anos. Já a família acolhedora, como recebe a criança ou o adolescente em sua própria casa, mesmo que temporariamente, também se compromete, por este período, integralmente, após uma capacitação que dependendo da organização, é realizada em três meses. Já a madrinha ou o padrinho afetivo se capacita em quatro meses e após o apadrinhamento, é possível estar com a criança semanalmente dentro e fora da entidade de acolhimento. E ele pode durar um longo período de tempo.    

Vale ressaltar que o apadrinhamento pode ser ainda financeiro, o qual é praticado, inclusive, por empresas. Act!onaid e Casa Taiguara são exemplos de iniciativas que não dispensariam esse tipo de apoio. Existem pessoas ou casais que por razões pessoais decidem não se responsabilizar afetivamente por uma criança, mas oferecem todo o suporte financeiro para o desenvolvimento dela.   

Pessoalmente, após escrever este artigo e depois de um longo telefonema para um juiz amigo – e muito paciente -, da Vara da Infância e Juventude, a fim de que ele me explicasse melhor como tudo acontece na prática, uma certeza tive: além do desejo do apadrinhamento afetivo no momento certo que minha vida permitirá, quero ser uma incentivadora desta prática. A realidade dessas crianças e adolescentes me tocaram profundamente e os depoimentos me comoveram. Mas mais que isso, deram uma sensação de algo que ainda preciso viver, pois certamente não será apenas a vida do jovem que se transformará. A minha, e quiçá da minha família, também! 

Luciana Monteiro Portugal  (Ig @lumonteiroportugal FB e LinkedIn Luciana Monteiro Portugal Gomes) é advogada por formação e voluntária por opção. Quinzenalmente divide conosco sua experiência no terceiro setor e mostra que doação compreende mas vai além do dinheiro, pode-se doar tempo e habilidades

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