SEM LUCRO MAS COM MUITOS GANHOS

SEM LUCRO MAS COM MUITOS GANHOS

por Luciana Monteiro Portugal

Quando ouvi pela primeira vez “vamos mandar a desigualdade social para o museu” logo pensei “wow, quem ‘promete’ algo tão desafiador num país como o Brasil?”. Mas confesso que adorei!

Edu Lyra nasceu em 1988, na periferia da cidade de Guarulhos, segunda maior do estado de São Paulo. Sua infância foi marcada por acontecimentos como ter a casa destruída por uma tempestade e o pai preso por porte de arma, assalto a banco e formação de quadrilha, com vinte anos de detenção já cumpridos.

Sempre impulsionado pela mãe que o estimulava a participar de projetos voluntários e de quem constantemente ouvia que não importava de onde ele vinha, mas sim para onde iria, Edu Lyra estudou e até ingressou na faculdade de jornalismo, a qual abandonou por uma missão maior.

Após inúmeras palestras em escolas públicas para divulgar uma iniciativa independente, o livro Jovens Falcões, Lyra teve a ideia de criar uma ONG, o Instituto Gerando Falcões, que tem como grande diferencial o modelo de gestão da iniciativa privada, ainda pouco aplicável no terceiro setor brasileiro. No caso dos Falcões, o modelo é o da Ambev com metas, indicadores de performance, rituais de gestão, plano de carreira e bonificações, sendo Jorge Paulo Lemann um dos grandes parceiros do projeto que hoje conta com fortíssimos nomes do empresariado nacional, inclusive das famílias donas do banco assaltado por seu pai. O mundo dá voltas! 

A missão dos Falcões é erguer pontes de oportunidades entre a periferia e o centro e mandar a atual desigualdade social para o museu, atuando em rede nas periferias e favelas, através do esporte e da cultura para crianças e adolescentes e qualificação profissional para jovens e adultos como um motor de renda para as famílias. E é claro que quando conheci essa história e o projeto, me apaixonei por este visionário que surgido da periferia hoje transita entre o maior PIB nacional em busca de apoio e recursos financeiros. Transita e senta à mesa com todos, tendo sido eleito pela Forbes um dos jovens mais influentes do Brasil abaixo dos 30 anos, em 2014.

A ignição da minha admiração e empatia por este trabalho surgiu de um projeto que participei há muitos anos atrás com uma organização que chamava-se Voz Ativa. Através do esporte e de capacitação para o mercado de trabalho, ela objetivava a inclusão dos jovens moradores da favela que existia às margens da Av. Roberto Marinho, quando ainda era Água Espraiada no mercado e na sociedade. Eu era membro do Comitê de Responsabilidade Social da CCFB – Câmara de Comércio França Brasil e fui convidada para ministrar o módulo ética e cidadania no curso de capacitação. A aliança com a CCFB surgiu da proposta de capacitarmos aqueles jovens que teriam a oportunidade de depois participarem dos processos de seleção das multinacionais francesas associadas à Câmara. Foi um sucesso! Nem a favela, tampouco o Voz Ativa existem mais.      

As favelas são vistas como uma consequência direta da má distribuição de renda e do déficit habitacional do país. Um reflexo da desigualdade, razão pela qual não faz sentindo nenhum, para mim, o acirrado debate travado por aqueles que se autodenominam politicamente corretos entre os termos favela e comunidade. Sequer os líderes das favelas defendem isso. Antes de abolirmos o termo, deveríamos acabar com as favelas, fazendo com que se tornem, de fato, verdadeiras comunidades com acesso aos direitos básicos que muitas ainda não possuem, como saneamento e luz elétrica.

Segundo os dados do IBGE/2018, um em cada cinco moradores do Rio de Janeiro vive em favelas. O mesmo instituto prevê que o número de domicílios ocupados em favelas ou áreas análogas no Brasil chegou a aproximadamente 5,12 milhões em 2019, representando um aumento de 59% desde o censo anterior, em 2010. Se as favelas formassem um estado, elas seriam o quinto estado do Brasil em termos de população, contando com 13,6 milhões de pessoas com organizações próprias, como a CUFA – Central Única das Favelas e o G10 das Favelas, que reúne algumas das maiores comunidades do país.

Na atual pandemia, inúmeras ações foram criadas para atender essa população carente, pois o Covid-19 escancarou os problemas das favelas. Foram pessoas físicas, jurídicas, instituições e até escolas se mexendo. Mesmo assim, por ainda serem quase invisíveis aos olhos dos governantes, precisaram se organizar e unir forças, pois não adianta mandar lavar as mãos onde a água chega dia sim, dia não e álcool gel é artigo de luxo. Campanhas midiáticas com mensagens como “trabalhe de casa” ou “saia apenas para o essencial” não faz eco nestes lugares e para esta parcela da população, assim como utilizar termos como o sistema de saúde irá colapsar não passa mensagem. Tem que dizer que quando chegarem no hospital não terá vaga e pronto.

E para tentar conscientizar as pessoas da periferia e das favelas não é a televisão que os conecta aos riscos ou à prevenção. Nem o celular. São alto-falantes na moto e na bicicleta ou um porta a porta (toc-toc). Realidade muito diversa daquela que o cidadão da zona sul vive. 

Então, apesar do governo ter de agir para reverter o problema, a sociedade civil não pode cruzar os braços. Por isso que iniciativas originadas nas favelas ainda contam com o apoio da sociedade para poder arrecadar, através de vaquinha virtual ou transferência bancária, montantes que objetivam diminuir o impacto da covid-19 em áreas periféricas em todo o Brasil. Para quem tiver interesse, indicarei algumas ações que ainda não alcançaram suas metas de arrecadação. O Matchfunding Enfrente é uma plataforma de financiamento de iniciativas de enfrentamento aos efeitos da pandemia nas periferias brasileiras. Nela pode ser escolhido o projeto que gerar maior empatia com cada um e feita a doação. No Rio de Janeiro, o Rio Contra Corona destina-se a comprar itens básicos de prevenção contra a doença e atender outras demandas que vêm surgindo. Conhecido como o LinkedIn da favela, o Emprega Comunidades nasceu com o intuito de reduzir a distância entre empresas e candidatos moradores das favelas. É assim que diaristas desempregadas de Paraisópolis, em São Paulo, através do programa Adote uma Diarista procuram driblar a crise.

Mas como a pandemia vai passar, na contramão da desigualdade social que permanece, as iniciativas devem continuar, sendo que uma em especial me chamou bastante atenção: Hawks, programa da Falcons University da Gerando Falcões – eles de novo – que reunirá jovens talentos de 52 famílias empresárias nos próximos quatro anos, com seis meses de experiências pedagógicas na favela, no presídio, em escolas públicas etc. Com o término da imersão, o jovem irá escolher um problema mais urgente para resolver com os talentos da comunidade nas próximas décadas. Como disse o próprio Edu Lyra, “cabeça de longo prazo para mudar o Brasil”.

Vamos torcer por mais Eduardos Lyra que através do esporte e da cultura ou da capacitação profissional, avança com a cidadania pelo nosso país. Um trabalho incrível de inclusão social que almeja mandar a desigualdade social para o museu!         

Luciana Monteio Portugal  (Ig @lumonteiroportugal FB e LinkedIn Luciana Monteiro Portugal Gomes) é advogada por formação e voluntária por opção. Quinzenalmente divide conosco sua experiência no terceiro setor e mostra que doação compreende mas vai além do dinheiro, pode-se doar tempo e habilidades

      

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