SAÚDE+

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por Danielle Amoêdo

PANDEMIA E SEUS IMPACTOS 

Outro dia, uma cliente em consulta por telemedicina me questionou da seguinte forma: 
— Nunca pensei falar com você pelo computador, dra. Dani, nunca pensei que aos meus 82 anos, depois de tudo que passei na minha vida, eu pudesse dizer que estou com medo, tristeza e apreensiva pela incerteza do futuro.

Essa fala me trouxe uma certa angústia pois nenhum médico no mundo foi preparado para responder sobre a complexidade dos impactos de uma pandemia. 

Antes de qualquer coisa também somos seres humanos que estão perdendo pessoas queridas -no meu caso perdi uma prima e meu maior mentor da faculdade-, somos seres humanos que estão exaustos física e emocionalmente, porém temos a missão, que vai muito além da profissão, de acolher e cuidar dessa voz que pela tela do computador me pediu socorro devido à sua fragilidade no momento. 

Apesar do tom de morbidade nessas linhas, infelizmente se trata de uma grande realidade e convido vocês a fazermos desse momento limão azedo uma limonada  e avaliarmos a nossa capacidade de resiliência. 

Voltando ao início, quando a senhora de 82 anos e múltiplas experiências de vida, demonstrou uma grande angústia, respondi com outras perguntas: 

  1. A senhora se sente infeliz somente neste momento? (a resposta foi ‘sim pois sempre teve prazer em viver’);
  2. Os outros momentos tristes da sua vida, a senhora esperava por eles? (a resposta foi ‘não’ , nesse momento monossilábica pois já estava mergulhando no universo da auto-reflexão);
  3. Como a senhora costumava reagir ao passar quando por momentos de angústia e tristeza? (a resposta foi ‘exerci minha fé na entrega e na limitação dos meus poderes sobre algumas circunstâncias da vida’);
  4. O que esse momento tem de diferente dos outros que foram tão difíceis? (a resposta foi ‘a imprevisibilidade de quanto tempo isso pode durar’).

Fiquei um pouco quieta para deixá-la em reflexão que foi induzida pela última pergunta . Depois de uns 5 minutos, ela disse: 

— Dra Dani, acho que na verdade estou pensando erroneamente. A nossa vida é um verdadeiro imprevisível, temos que aproveitar o hoje sem firulas e com responsabilidade. Com pandemia ou sem pandemia, não sabemos como será o dia de amanhã . O COVID na verdade somente me sinalizou o quão frágil sou perante um universo incerto em que tenho que viver todos os dias como se fosse o último. 

Nossa consulta (que na verdade foi mais uma escuta) encerrou por ali e na semana seguinte voltamos a nos falar. Minha cliente a cada dia foi se aprofundando mais nessa imersão dos impactos do isolamento social. Me trouxe uma verdadeira lista de coisas que até já tinha esquecido que gostava de fazer e, com a correria do dia a dia, foi deixando de lado . Então, do limão azedo veio uma super limonada docinha com a recuperação do prazer em cozinhar algo, ler um livro que comprou há séculos e ainda estava esperando a sua vez na estante, meditação com aquela música do disco que ainda é de vinil. Na lista ainda tinha nomes de pessoas que gostaria de recuperar o contato, agora ainda mais possível com as facilidades tecnológicas.

Finalizamos essa segunda consulta-escuta com um certo ar de esperança, leveza . Alguns poderiam até dizer que seria uma enganação do cérebro, pois problemas sócio-econômicos, mortes em massa, continuam acontecendo diariamente. Todavia o que posso dizer é que com certeza seremos mais úteis à sociedade e a nós mesmos se buscarmos estar sempre bem (na medida do possível) e assim multiplicarmos coisas boas. 

Dr Carlos Alfredo Elias Auad, meu mestre na vida universitária, hoje minha estrela no céu que perdeu para o vírus mas salvou inúmeras vidas, sempre me dizia “você saberá que está fazendo o correto quando tiver a dúvida de não saber se se diverte trabalhando ou se trabalha se divertindo“.

Assim levo minha mensagem, assim acolho os que me procuram, assim sigo a vida. Carpe diem, se cuidem!

Danielle Amoêdo (contato@danielleamoedogeriatria.com.br/ www.danielleamoedogeriatria.com.br) é médica pela Fundação Oswaldo Aranha (UNIFOA/ Volta Redonda), pós-graduada em Geriatria e Gerontologia (UFG), especialista em Envelhecimento Ativo. É Coordenadora Médica no Programa de Assistência ao Idoso (Grupo Notredame Intermédica) e atende em consultório particular. Falará conosco mensalmente sobre saúde e os meios e modos de viver qualquer idade sempre da forma melhor e mais saudável possível.

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