SAÚDE+

SAÚDE+

por Danielle Amoêdo

Os tabus e bloqueios em dialogar sobre a sexualidade pioram com o passar dos anos: surgem cada vez mais barreiras e distanciamentos.
É o que mostra a minha prática de consultório.

A sexualidade é uma condição humana construída durante toda a vida do indivíduo e se inicia ainda na infância. Ela é influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais, políticos, culturais, históricos, econômicos e religiosos. Tudo isso torna extremamente complexa a sua abordagem por se tratar de um tema que pode seguir caminhos tão distintos . 

Observo em consultório diariamente que, conforme os anos passam, os tabus e bloqueios em dialogar sobre tal temática ficam cada vez com mais barreiras e distanciamentos. Por essa razão, gostaria de ter alguns minutos de reflexão junto com vocês, não sobre sexo mas sobre sexualidade, afetividade de forma mais íntima conforme os anos vão passando. 

A primeira confusão que identifico é sobre como entender que sexualidade não é apenas o ato sexual. Ela envolve carinho, gentileza, opções e afinidades para se ter prazer. O ato sexual seria apenas consequência de toda essa cumplicidade de sentimentos . 

Um erro muito comum é achar que conforme os anos passam não podemos ter uma vida sexual ativa, seja pela diminuição da funcionalidade dos órgãos genitais (o que é mais do que fisiológico), seja pelas mil questões que envolvem a nossa formação. É um pensamento equivocado que traz sofrimento e angústias, gerando um impacto negativo na nossa autoestima.

Qual é o problema de alguém com mais de 50 ou 60 anos buscar uma vida sexual satisfatória? Quem inventou essa proibição, esse impedimento? Vale uma séria reflexão a respeito.

Sabemos que a menopausa provoca mudanças no corpo e pode afetar o desejo sexual. O mesmo acontece com o homem quando inicia o processo de déficit androgênico após 50 anos. Mas aí é o final do túnel? Óbvio que não! 

Tenho pacientes com vida sexual mais ativa hoje do que quando eram mais jovens e estavam preocupados em serem produtivos, sem tempo para autocuidado, lazer, diálogo e aproximação afetiva com o parceiro.

Uma cliente me disse que começou a ser feliz na sua sexualidade quando parou de se importar com a opinião dos outros. Extremamente religiosa, vem de uma família de caráter patriarcal. Na sua história de vida, a Amélia, mulher de verdade era a medida do acerto: submissão, devoção ao lar e quase não se olhar como mulher. Vida sexual ativa? Quase nunca, por muitos anos. Na concepção de educação dessa senhora, sexo era apenas um cumprimento quase que social para ampliar e perpetuar a família.

Ela tem -ou melhor, tinha- aquele perfil de concepção de que a pessoa quando se torna mãe deixa de ser mulher. Algumas pessoas simplesmente esquecem de si  quanto passam por essa fase na vida. Daí, um belo dia, os filhos cresceram, casaram, saíram de casa. A gratidão por esses anos de cuidado integral ficou. Mas, onde estava o equilíbrio entre cuidar de si e cuidar do outro?

Até parece que foi de repente. Em algum momento, ela teve um “start” e resolveu rever sua vida, trazendo para perto de si tudo que poderia lhe trazer leveza, prazer e momentos de felicidade. Para minha surpresa, refletir sobre a vida sexual, companheirismo e carinho foram tópicos importantes na sua lista de prioridades.

Essa bela mulher, com muito diálogo, se reaproximou do marido. Com o tempo, ele também acabou por relatar as mesmas carências de atenção. Ou seja, praticamente uma solidão a dois que foi perpetuada por tantos anos. Ambos  foram se reconhecendo, se re-namorando, se reencontrando numa história de vida que teve como sentimento inicial, lá na adolescência, o verdadeiro amor. Hoje viajam, praticam atividade física, andam de mãos dadas, um beijo na testa quando se despedem e, claro, vida sexual ativa e satisfatória.

Posso dizer que ambos estão exercendo muito bem a sua sexualidade. Ela é proveniente da cumplicidade e resiliência em ressignificar os anos de experiência em sabedoria, momentos de prazer e felicidade.

Para finalizar a maravilhosa consulta (para mim foi um delicioso bate-papo em que aprendi muito), ambos disseram que, até mesmo quando forem “bem velhinhos “ e não existir a possibilidade do ato sexual, a sexualidade estará presente. Pois o toque, o abraço, o beijo -e tantos gestos que até com 200 anos não custam esforço- estarão presentes até o último dia de vida . 

Que sejamos sempre felizes e vivamos a nossa sexualidade como forma de complemento da nossa felicidade. Viva a vida !

Danielle Amoêdo (contato@danielleamoedogeriatria.com.br/ www.danielleamoedogeriatria.com.br) é médica pela Fundação Oswaldo Aranha (UNIFOA/ Volta Redonda), pós-graduada em Geriatria e Gerontologia (UFG), especialista em Envelhecimento Ativo. É Coordenadora Médica no Programa de Assistência ao Idoso (Grupo Notredame Intermédica) e atende em consultório particular. Falará conosco mensalmente sobre saúde e os meios e modos de viver qualquer idade sempre da forma melhor e mais saudável possível.

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