PLANO B

PLANO B

por Mariano Lucente

Sem-teto

Se eu perguntar qual é o seu endereço, você certamente responderá que fica na rua tal, na avenida x ou na praça y. Que bom, pois era essa resposta que eu esperava ouvir. Felizes aqueles que têm um endereço para voltar ao final de um dia de trabalho, de volta de uma viagem, do retorno de algum hospital onde esteve sendo atendido, de uma balada onde estava comemorando com os amigos. Que ótimo é ter um lugar que possamos chamar de porto seguro e encontrar com pessoas que amamos e queremos bem.

Tenho aproveitado esses momentos mais fechados em casa e, com muita segurança, fui realizar meu check-up anual e tomei um puxão de orelha do médico que reclamou da minha falta de exercícios e me obrigou a caminhar pelo menos 200 minutos por semana para recuperar minha saúde (além de outros cuidados) e sair do sedentarismo a que me acostumei desnecessariamente.

Como sou metódico em minhas decisões (nem precisaria escrever isso para aqueles que me conhecem), iniciei um plano de atividades e me pus em marcha. Tem dado certo e venho me sentindo melhor. No começo parece impossível mas, à medida que o tempo vai passando, vou me acostumando e aumentando a marcha. São Silvestre me espere que um dia chego lá.

Nessas caminhadas comecei a observar, talvez pelo horário e pela concentração existente, muitos moradores de rua, individuais, alguns em família e quase na maioria das vezes acompanhados por seus fiéis animais de estimação. Na verdade, o tema não era desconhecido para mim porém, talvez passando de carro e em velocidade mais rápida, a dor e a preocupação não me afetavam tanto. Passar ao lado, ver detalhes da convivência, sentir o cheiro da falta de higiene que essas pessoas vivem, ver o estado de pobreza em detalhes e falta de perspectiva deles mexeram comigo e me obrigam a tentar algumas coisas.

Sempre que vemos uma pessoa maltrapilha, suja, meio desorientada nas ruas, tendemos a nos afastar, ficamos com medo, procuramos desviar nossos caminhos. Falo por mim, mas tenho certeza que represento muitos de vocês. Já parou para conversar com algum deles? Sempre existe uma história por trás de tudo.

Por que será que essas pessoas chegaram a tal situação? Normalmente os classificamos como vagabundos, marginais, desocupados enfim, uma série de adjetivos depreciativos.

Provavelmente, muitos deles experimentaram derrotas pessoais e profissionais, não tiveram força nem apoio de suas famílias para suportar e  foram induzidos a esse submundo. Acabam perdendo a família, as oportunidades de emprego, as chances de crescimento na vida e que levam a perder a vontade de viver, a dignidade e até o perfeito funcionamento do raciocínio. Qual de nós teve a coragem de trazer uma dessas pessoas para tomar um banho decente ou fazer uma refeição adequada? Qual empresário vai pensar em considerar um desses currículos na disputa de uma vaga?

Algumas instituições religiosas são contra o controle de natalidade (não estou defendendo o aborto) e algumas políticas sociais acabam incentivando o aumento do número de filhos. O que nossos representantes na Câmera e no Senado fazem para recuperar essas pessoas e tirá-los das ruas? Até quando veremos mães com filhos no colo ou, ainda pior, os ensinando a pedir nos semáforos.  Soluções para o tema seriam ótimas para os moradores de rua e para todos nós. Uma cidade mais justa, mais segura, mais limpa, menos agressiva.

O Plano B de hoje é desacomodar. Acreditar que cada um, dentro das próprias limitações pode fazer alguma coisa – uma quentinha de comida, uma roupa limpa, participar de instituições que acolhem e ajudam nesse processo e principalmente cobrar dos políticos de qualquer esfera que busquem ações concretas e efetivas para isso.

O ser humano de qualquer raça, nacionalidade, credo, opção sexual, posição financeira é o maior bem que temos no planeta. Somos iguais, somos irmãos. Moradia é um dos direitos básicos que todos deveriam ter acesso.

Hoje podemos estar bem, mesmo com algumas dificuldades normais no desenvolvimento pessoal, familiar e profissional, mas nunca saberemos o que o dia de amanhã poderá nos trazer. Não estamos isentos de nada. Pau que bate em Chico, bate em Francisco.

As piores coisas da vida podem ser solucionadas ou minimizadas com fé, perseverança, trabalho e muita humildade. Mãos à obra. Pequenos atos de muitas pessoas podem equivaler a uma grande obra.

Mariano Lucente (WhatsApp 11.955304623 e makeub156@gmail-com) é engenheiro, administrador, gosta muito de estudar e aprender. Já recebeu muito dessa vida e quer compartilhar conosco suas pequenas ou grandes guinadas, seus recomeços e todas as vezes em que teve que usar um Plano B.



5 comentários sobre “PLANO B

  1. Excelente texto que nos leva a uma grande reflexão da vida… tanto a nossa como a das outras pessoas e nos trás uma sede em viver em um mundo fraterno, que ainda estamos muito distantes, porém, a humanidade encontra-se sempre nos caminhos da evolução tanto pessoal quanto das civilizações.
    Parabéns pelo texto, Mariano!

  2. Alguns países da União Européia oferecem aos sem-teto , habitações permanentes, sem impor condições. Concede ainda assistência social para ajudá-los a colocar a vida nos eixos, lidando com questões como vício em drogas e desemprego.

  3. Eu ia no Supermercado Dia para economizar, mas na saída sempre tinha alguém pedindo: compra um kilo de arroz, compra um litro de leite, compra uma fralda para meu filho, e minha economia ia por água abaixo.
    Porém refletindo, aprendi que a caridade é a ação impulsionada por um sentimento de amor e por nós desenvolvida em favor do próximo.
    Hoje quando saio do Dia e não tem ninguém pedindo, fico frustrado.

  4. Parabéns Mariano. Mais um texto trazendo verdades e um prato cheio para reflexões e ações. Somos todos um. Dar a mão ao outro é um ato de moral elevada, empatia e compaixão.
    Qualquer ato de bondade é uma semente de amor que plantamos no planeta. Se todos plantarem pelo menos uma semente, o mundo se tornará um belo jardim. Gratidão

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