PLANO B

PLANO B

por Mariano Lucente

Mudança radical
Um acidente trágico fez com que não pudesse andar mais, no entanto ela decidiu que não era hora de parar sua caminhada. Hoje vou relatar a história de Ana Angélica Manhani, 54 anos, natural de Adamantina/SP.

Quando a conheci, numa empresa em que trabalhamos juntos na década de 80, percebi que era uma pessoa com mais energia do que cabia naquele corpo físico. Sempre disposta, acelerada, com muita boa vontade às vezes até acabava atropelando alguns processos. Bem trabalhada, com certeza formaria uma profissional de primeira linha.

Em 91, trabalhando em outro lugar, conheceu um rapaz, se apaixonaram e começaram a namorar. Certa noite, o rapaz tomou coragem e a pediu em casamento. Angélica muito feliz aceitou o convite e preparou um jantar de comemoração para o noivo e a mãe dela. Nesse ínterim, uma amiga ligou e os convidou para irem a uma festa. O novo casal não estava muito disposto, mas para não ser desagradável, aceitaram o convite. Ficaram pouco na festa e resolveram voltar.

Estavam se despedindo dentro do carro, muito comum naquela época quando foram surpreendidos por assaltantes que deram dois tiros no rapaz, e um tiro em Angélica. Ele infelizmente perdeu a vida imediatamente e ela ficou tetraparésica, com os movimentos abaixo do peito paralisados ou comprometidos.

Começava aqui o verdadeiro Plano B da vida de Angélica. Recomeçar do zero a maioria das atividades e tentar continuar construir sua vida e seus sonhos.

Vivendo em uma família com muitas dificuldades financeiras, procurou e utilizou os serviços públicos existentes. Esses serviços são fundamentais, mas não completam a necessidade de seus usuários. Faltam profissionais, mais locais de atendimento e principalmente um serviço de acompanhamento mais direto a cada um e uma maior ajuda no fornecimento de medicamentos, principalmente aos mais necessitados.

Angélica foi aposentada por invalidez e completava sua renda mensal com trabalhos informais. Conseguiu se formar em Gestão de Pessoas e se casou. Um grupo de amigos que trabalharam com Angélica se cotizaram e a presentearam com uma cadeira elétrica motorizada que ajudou muito na sua mobilidade.

O casamento, que poderia ter sido uma bênção na verdade foi um desastre. A convivência mostrou a diferença de temperamentos e de necessidades de cada um. Durou pouco mais de dois anos. Ela voltou a viver com sua mãe e irmã mais velha, pessoas que realmente foram anjos em sua vida.

De formação religiosa, no início se revoltou com Deus. Vivendo essa nova realidade percebeu que, apesar de todas as dificuldades que tinha, existiam outras pessoas com problemas ainda maiores. Desse momento em diante entendeu que não havia sido nenhum castigo para ela e então parou de perguntar por que comigo? “Todos temos problemas e devemos entender como somos fortes”, menciona Angélica.

Hoje a acessibilidade melhorou muito, mas ainda está longe de ser suficiente para receber essa enorme quantidade de pessoas com necessidades especiais. É preciso melhorar os serviços, criar espaços de trabalho entre outras coisas.

“Estou cansada dessas pessoas politicamente corretas, extremamente sensíveis a qualquer nomenclatura e insensíveis com o ser humano. Existe muita hipocrisia, inclusive entre os próprios deficientes. Cansada de propaganda enganosa. Nós precisamos ser humildes, todos temos limitações, muitas não são visíveis, então, respeite a do outro também”, desabafa nossa personagem de hoje.

Vamos torcer para que pessoas realmente engajadas nessa causa possam assumir cargos nas esferas municipais, estaduais e federais e que todos nós possamos contribuir de alguma forma com as pessoas e instituições. Leis e regulamentos já existem, faltam apenas serem exercidas e cumpridas. As políticas existentes são para muitos e não para todos.

Finalizando e esperando uma reflexão de todos nós, Angélica, na foto acima, após 29 anos do ocorrido, nos deixa um grande ensinamento:

“Enquanto formos donos de nossas mentes e capazes de abrir novas janelas, vamos descobrir que podemos caminhar por lugares que nem imaginamos”.

Mariano Lucente (WhatsApp 11.955304623 e makeub156@gmail-com) é engenheiro, administrador, gosta muito de estudar e aprender. Já recebeu muito dessa vida e quer compartilhar conosco suas pequenas ou grandes guinadas, seus recomeços e todas as vezes em que teve que usar um Plano B.

Um comentário em “PLANO B

  1. Parabéns Mariano.
    grata por escrever histórias de vida que nos fortalecem, nos fazem mais gratos e nos fazem creditar que tudo é possível. Parabéns para Ana Angélica, mulher guerreira e de enorme fortaleza interior.

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