PENSANDO NO DILEMA DAS REDES

PENSANDO NO DILEMA DAS REDES

por Ricardo Eid Philipp

(especial de No escurinho do cinema)

Assisti The Social Dilemma no final de semana do lançamento. Já não sei mais de quem veio a recomendação inicial. Foi tanta gente falando sobre o assunto, me escrevendo, querendo saber a minha opinião que não sei mais onde a confusão começou. Talvez essa seja uma das questões que o filme levanta e que deixou as pessoas tontas, confusas e se perguntando: onde é que isso começou?
Eu não pretendia escrever uma coluna sobre o filme. Apesar do assunto ser do meu total interesse, gosto mais de escrever sobre coisas que entendo, consigo ver sentido e então traduzir aqui. E tenho a impressão de que o Social Dilemma ainda vai ser muito estudado e escrutinado até que alguém de fato entenda tudo o que saiu dessa caixa de pandora contemporânea.
Quando a Angela me pediu pra escrever especificamente sobre o filme, quis dois dias pra pensar. Entender o quanto fico confortável em escrever pensando na lista de especialistas que deveriam fazê-lo antes de mim. Psicólogos, psicoterapeutas, filósofos, economistas comportamentais, matemáticos, programadores.
E enquanto penso e escrevo, percebo que é exatamente esta a dúvida que surge na cabeça da maioria de nós: por onde é que eu começo a tentar entender qual foi o caminhão que nos atropelou?
Não sou nada fã de teorias da conspiração. Quando o assunto é redes sociais é bastante fácil ouvirmos clichês ou opiniões reducionistas e simplificadoras de um tema que não tem nada de simples.
Uma das qualidades do documentário é usar de forma lúdica alguns personagens usuários das redes. Isso facilitou bastante traduzir pra linguagem coloquial o entendimento de como a engrenagem funciona. Eu não tenho conta no Facebook. Uso meu Twitter como uma conta “silenciosa” onde posso ser voyer de muitas falas de muitas tribos diferentes. Sigo a direita, esquerda, os de centro e os enrustidos. Sigo perfis de arte, de finanças, jornalistas, celebridades. Sempre achei que essa diversidade me ajuda a tirar minhas próprias conclusões sobre os temas contemporâneos. Além do tema publicado, os comentários dos usuários são uma relativa boa amostra dos humores, crenças e visão das pessoas
Minha conta no Instagram eu criei há alguns anos atrás pensando que seria uma ótima ferramenta de tecnologia para fazer minha lista de momentos que eu gostaria de lembrar. Nosso álbum de fotos no celular tem informação demais. No Instagram eu poderia ter uma seleção mais significativa das memórias que eu sentia que poderiam ser gostosas de revisitar no futuro.
Começo a falar do Social Dilemma contando a minha experiência nas redes, pois é isso o que ouvi de muita gente. O filme abre uma janela de reflexão enorme sobre o que queremos e como e porque estamos usando as redes. No meu caso, o uso nasceu dessas histórias. Mas ele foi se transformando ao longo do tempo. Nunca imaginei que ao abrir uma conta no Instagram eu teria seguidores. Era um álbum pessoal de memórias. Mas conforme o tempo foi passando descobri que as máquinas vão trabalhando e nos colocando em contato.
Achei de inicio um pouco invasivo mas eram, em sua maioria, amigos. Fui aceitando os convites para me seguirem. E assim entrei, quase sem me dar conta, na engrenagem de postar, ter likes, ajustar o próximo post pensando em mais likes. Qual é a melhor hora para postar? As pessoas gostam de bichos? Crianças? Hum, já sei qual vai ser meu próximo post!
NoTwitter, eu não posto nada, mas fui percebendo ao longo do tempo como as opiniões foram ficando cada vez mais ácidas, polarizadas e grosseiras. O bom debate deu lugar a uma rinha das mais difíceis de digerir. Passei a entrar com menos frequência. Meu uso primário é para checar fatos que leio na imprensa. Prefiro tirar minhas próprias conclusões ouvindo o discurso original do Trump ou o post agressivo da ministra e a repercussão nos comentários e repostas.
The Social Dilemma me ajudou a esclarecer uma peça chave nesse jogo de múltiplos espelhos. Entre os interesses individuais de auto-promoção, notícias e piadas, o que todos nós estamos fazendo é gerar conteúdo para as redes. Fomos promovidos a jornalistas independentes e cada um dos nossos posts é uma nova matéria que vai chamar atenção de um público específico. E tudo o que as redes precisam é de público. Pessoas navegando e consumindo todo esse conteúdo gerado por nós mesmos. Porque no fim do dia, a cada notícia adicional que eu li, foto que eu curti e comentário que fiz, passei mais alguns preciosos minutos na tela. E nesses minutos, sem que eu percebesse, as redes faturaram a cada anúncio que eu parei pra ver. Eu não preciso comprar nada para que a rede ganhe dinheiro. Basta passar horas e horas hipnotizado pelo fascínio de ter o mundo ao meu alcance.
Esse uso massivo das redes tem muitas consequências que o documentário condensa num documento que nos ajuda a tirar um pouco mais de sentido em algumas coisas muito dificeis de explicar na atualidade. Por que o suicidio entre adolescentes aumenta a taxas alarmantes? Porque há pessoas postando conteúdos obviamente falsos e gerando com isso muito ódio, desconfiança e divisão na sociedade?
Apesar de não devermos menosprezar, me interessa menos entender o interesse dos produtores e participantes do filme. O ataque em forma de denuncia tem objetivo de informar ou criar mais divisão de opiniões? Não saberemos ao certo. Mas a narrativa pra mim fez muito sentido.
Continuarei a manter meu uso das redes. Eu já não recebo avisos e notificações, como recomendado pelos especialistas no filme. Já sei que os algoritmos vão me direcionar conteúdos que acham que seja do meu interesse.
A questão multidisciplinar e que pra mim e pra todos com quem conversei se abre é: como faremos com que o uso seja saudável e que as pessoas possam ter capacidade crítica? Como manter os benefícios originais de conectar as pessoas gerando entendimento, convergência e bem estar? Como as crianças que nascem na realidade das redes possam ser cidadãos independentes, com livre arbítrio e capacidade crítica?
Não estou pessimista. Apenas entendi que precisamos todos abraçar uma agenda de regulação de uso e conteúdo. Que esbarra nas dificuldades éticas e tecnológicas já imaginadas por George Orwell, Aldous Huxley, Isaac Asimov, Stanley Kubrick e tantos outros pensadores que se debruçaram sobre este tema ao longo da história.

Ricardo Eid Philipp (instagram: ricardoep) é empresário e apaixonado por cinema desde as sessões matinais do Tom&Jerry. Quinzenalmente, divide conosco seu jeito perennial de falar dos filmes, nem crítica nem resenha, conta o que sentiu.

2 comentários sobre “PENSANDO NO DILEMA DAS REDES

  1. Eu ainda não assisti a esse filme. Me divido entre a “preguiça”do tema, pois fala-se muito sobre isso, e também a um certo receio sobre o que vou encontrar. De qualquer maneira, o progresso tecnológico está ai, e temos que nos adaptar, pois ele só caminha pra frente. Seus textos são ótimos!

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Olá, quero seguir o seu blog.