No escurinho do cinema

No escurinho do cinema

por Ricardo Eid Philipp

Mucho Mucho Amor

Quem assistiu televisão entre 1970 e 2010 e morava no planeta Terra já ouviu a expressão “Ligue já”! Que ouvida em portunhol fica mais para “Ligue djá”. Nunca, jamais, em nenhum dos meus melhores pensamentos achei que poderia me divertir e me emocionar tanto com um documentário. Ainda mais sobre o Walter Mercado, essa figura excêntrica que por mais de 40 anos ficava repetindo esse mantra que pra mim soava chatíssimo.

Só que achei a história fabulosa. Ele nasceu pobre de marré, marré marré, em Porto Rico e já divertia a família desde pequeno com sua facilidade para atuação. Virou ator de novela, super famoso e festejado. Já seria uma história ótima. Sucesso. Fecha a cortina. Sobem os créditos. Palmas. Mas sabe essas pessoas que vão fazendo e fazendo e fazendo? Sem parar. Aqui aquele ditado que diz que “quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho” se aplica super bem. Ele trabalhava muito. E por um desses acasos da sorte, acabou sendo convidado pra fazer um programa de horóscopo. Com todo o talento artístico, capacidade de expressão e visual andrógino ele foi crescendo e conquistando mais e mais fãs. Os programas foram ganhando orçamentos maiores, as produções foram ficando mais sofisticadas e ele foi dando asas à imaginação.

Mercado quebrou muitas convenções sociais. Era idolatrado pelas comunidades latina e gay que viam nele uma figura que os representava. Como era assistido por donas de casa enquanto faziam seus afazeres domésticos, os filhos e netos pequenos cresceram desde sempre ouvindo e vendo aquele programa. A memória afetiva que essas crianças guardaram é absolutamente incrível! Vários foram entrevistados e choravam lembrando das suas avós assistindo ao programa. Os gays são outro grupo que adorava o Walter Mercado. Ele nunca se assumiu gay. Na verdade nunca afirmou preferência sexual nenhuma quando era insistentemente questionado sobre isso em milhares de entrevistas que concedia. Enquanto os padrões sociais exigiam que ele se posicionasse, ele não queria ser rotulado de nada a não ser como o mensageiro das estrelas. Aquele que tem sempre uma palavra doce e de esperança.

A vida dá voltas e nem tudo são flores. O documentário também me conquistou por narrar os altos e baixos. E eles aconteceram em quantidades equivalentes. Os diretores foram muito generosos e o próprio Walter contou seus dias de dificuldade com uma energia e capacidade de manter a fé e cabeça erguida que muitos de nós gostaríamos de ter. Me impressionou muito que mesmo nos momentos limite mais difíceis física e emocionalmente que ele encontrou, tinha uma força e uma vibração fora do comum. Talvez seja o que muitos entendam como fé.

Tenho que dizer que comecei assistindo este documentário com o pé bem atrás. Bem desconfiado. Só assisti porque foi uma indicação da minha amiga Monica e acho que temos gostos parecidos. Terminei o filme leve. Emocionado pela história de um personagem que eu não conhecia, que é extraordinário e que tive a grande sorte de pelo menos ter um gostinho de ver como viveu. Obrigado Monica.

Assista a Mucho Mucho Amor no Netflix

Missão no Mar Vermelho

Mais uma indicação. Essa foi do Roberto, meu irmão. Gosto muito de filmes de ação. Não assisti a todos os 007. Mas dá pro gasto todos os filmes do James Bond que assisti. Ele sabe que gosto de Fauda. Pra quem não assistiu, é uma série israelense que mostra os conflitos em que o Mossad se enfia na missão de proteger Israel. É bem violenta e ainda não consegui terminar a terceira temporada. Mas recomendo fortemente pra quem gosta de ação, séries estrangeiras e um pouco mais do que Hollywood mostra.

Enfim, Missão no Mar Vermelho é baseado em fatos reais protagonizados pelo Mossad nos anos 70 e 80. Há um grupo numeroso de judeus que emigrou para a Etiópia há alguns séculos (talvez milênios). São conhecidos como Beta Israel (ou A Casa de Israel). Essa comunidade cresceu e teve sua afluência. Mas conforme os governos ditatoriais foram se sucedendo, aqueles judeus começaram a ser perseguidos e massacrados. A comunidade local buscou então ajuda do governo de Israel para recebê-los de volta. Diversas operações bastante complexas foram organizadas pelo serviço secreto para evacuar aquelas populações. O assunto era muito delicado e polêmico. Na verdade continua polêmico até os dias de hoje. Há alas mais à direita que receberam o lançamento do filme com protestos nas ruas de Tel Aviv. E há também os que dizem que a história foi contada como propaganda a favor de Israel e para mostrar um país mais pacífico e benevolente do que essas pessoas acreditam ser. Como sempre digo ao escrever sobre temas polêmicos, o que menos me interessa é escolher um lado. Dizem que há três verdades: a sua, a minha e a verdadeira. Sendo fiel a essa idéia, fiz minha pesquisa e levantei os fatos históricos. Que contam uma história riquíssima e muito interessante. O filme é naturalmente feito para entreter e consegue contar um capítulo emocionante da história real de refugiados oprimidos por um regime inescrupuloso e que tiveram a chance de encontrar vidas melhores.

O diretor, Gideon Raff, é um israelense que ficou mais conhecido pelo seriado super premiado Homeland. Foi ele quem traduziu e escreveu a versão americana da série que originalmente foi filmada em Israel. Acho que um filme sobre um país que é filmado por um de seus cidadãos também imprime um resultado muito melhor e mais fiel à cultura de quem viveu aqueles dias.

Assista, divirta-se, se emocione e conheça mais um pedaço da história judaica que se confunde com a da colonização e fuga da África.

Assista a Missão no Mar Vermelho no Netflix

Miu Miu Women’s Tales

A Miuccia Prada assumiu os negócios de artigos de luxo da familia em 1978. Fundou ela mesma a Miu Miu e fez aquisições de diversas outras marcas, montando um grande grupo de empresas que orbitam em torno da moda.

A série de curtas que inaugurou em 2011 foi a principio uma iniciativa de promoção da marca. Que foi crescendo, ganhando fama e desde então não parou mais. São produzidos dois filmes por ano. Um para o lançamento da coleção de inverno e outro para a de verão. Os do inverno estreiam no Festival de Cinema de Veneza enquanto os de verão são mostrados no New York Fashion Week.

As diretoras, todas mulheres, têm liberdade total sobre o tema que querem apresentar. A única regra é que as roupas usadas na filmagem devem ser da Miu Miu. Tentei entender qual critério a Miuccia e a Verde Visconti (relações públicas da Miu Miu e braço direito da Miuccia) usam para escolher uma diretora. Não encontrei nenhuma história sobre isso. Tem desde diretoras muito famosas como outras menos experientes ou com trabalhos mais recentes. É uma curadoria cuidadosa e que me deixou bem interessado em conhecer melhor.

A Miranda July, por exemplo, é uma artista que usa muitas plataformas diferentes como forma de expressão. Ela também dirigiu diversos filmes mas tem performances, livros, discos entre vários outros projetos. Pra esta série da Miu Miu ela fez um filme bem nonsense mostrando um aplicativo de mensagens que ativa pessoas próximas ao receptor da mensagem para entregá-las pessoalmente. Acho a ideia e o resultado muito divertidos. A diretora Polonesa Malgorzata Szumowska fez o Nightwalk. Um pai tenta, sem nenhum sucesso, fazer com que seu filho siga seus passos. Enquanto isso, do outro lado da cidade, uma garota janta com sua mãe. Eles vão fazer uma caminhada noturna que muda as suas vidas. Lindo, sensível e delicado com o tema trans. A Agnés Varda, diretora belga premiadíssima e festejadíssima aceitou o convite para dirigir o ingênuo e divertido Les 3 Bouttons quando estava nos seus 86 anos. Linda aventura fantástica de uma garota que entra numa roupa Miu Miu e, como a Alice no País das Maravilhas, vai viver algumas aventuras. A Mati Diop fez seu filme durante a quarentena só com imagens de arquivo e outras que filmou da janela do seu apartamento em Paris.

Já foram filmados 20 curtas. Selecionei quatro deles que achei bem representativos. Estão todos disponíveis no YouTube. Os links, como sempre, seguem no final da coluna. Pra quem quiser maratonar mais alguns (ou quem sabe todos os 20), basta buscar por “Miu Miu Women’s Tales”. Estão todos lá.

Somebody por Miranda July
Nightwalk por Malgorzata Szumowska
Les 3 bouttons por Agnés Varda
In My Room por Mati Diop

A Juíza (RBG – Ruth Bader Ginsburg)

Não foi intencional mas a coluna desta quinzena acabou trazendo duas biografias. Até sua morte recente em 18 de setembro eu não conhecia a história dessa senhora. Ruth Bader Ginsburg, A Juíza, ou simplesmente RBG (como um grupo de jovens fãs a batizou) é mais uma dessas histórias incríveis de superação. De vida pobre e cheia de contratempos na infância mas que encontrou uma família amorosa e que valorizava seu interesse pela educação. Ficou órfã no final da adolescência e não muito tempo depois encontrou seu companheiro da vida toda.

São muitas histórias maravilhosas que ela viveu. Sempre muito introvertida e com ar grave, ao mergulhar nos estudos e nos livros, revelava toda a sua inteligência, conhecimento e perspicácia. Aprendeu desde cedo a decodificar o mundo masculino e foi entrando sempre com muito jeito, com muito tato, mas sem recuar nas suas ideias revolucionárias sobre igualdade entre as pessoas. Ela tinha uma sensibilidade muito aguçada para injustiças em geral e depois de se formar (não sem muitas críticas) como advogada em Harvard, foi lutar pela igualdade entre homens e mulheres. O que nos anos 70 era um absurso (ufa, ainda bem que em 2020 superamos isso!). Inteligente, ela se inspirou na argumentação de um advogado que trabalhava ao lado de Martin Luther King na defesa pela igualdade racial, para construir sua lógica de defesa das mulheres.

Foi ainda muito jovem defender sua primeira causa na Suprema Corte Americana. Ganhou. Com uma tese, linha de raciocínio e articulação impecáveis. Dá pra imaginar uma advogada mulher, baixinha, meio taciturna, defendendo outra mulher em frente a uma suprema corte inteiramente masculina no início dos anos 70? Ela repetia como um mantra que no grito nada se leva. Aprendeu com a mãe que uma boa conversa, com bons argumentos e civilidade pode-se chegar muito longe.

Três passagens da vida dela pra mim são muito marcantes. A intimidade, cumplicidade e carinho que o marido e ela tinham um pelo outro moveram montanhas. Uma das montanhas foi o marido pessoalmente decidir fazer campanha pra que ela fosse nomeada pra Suprema Corte quando uma vaga abriu no governo do Bill Clinton. Ela nem estava na lista. O marido usou todo o seu conhecimento e conseguiu uma audiência dela com o Presidente. Em 15 minutos de conversa o Bill Clinton se convenceu que ela seria a indicada. Sem nunca tê-la visto antes na vida. E por último, quando o marido se foi em 2010, ela ficou arrasada. Não podia ser diferente. Ela fez seu retiro, guardou o luto e quando voltou à ativa, voltou mais velhinha e mais poderosa e inquebrável do que jamais esteve. Teve mais dez anos de vida incríveis à frente da Suprema Corte jamais se deixando abater ou de se posicionar duramente pelas questões contemporâneas.

Era muita vida, muita inteligência, bom humor e afeto numa pessoa só. Se não conhece a história dela, recomendo muito, muito, muito.

Assista a RBG no Apple TV

Ricardo Eid Philipp (instagram: ricardoep) é empresário e apaixonado por cinema desde as sessões matinais do Tom&Jerry. Quinzenalmente, divide conosco seu jeito perennial de falar dos filmes, nem crítica nem resenha, conta o que sentiu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Open chat
1
Olá, quero seguir o seu blog.