Leia! com Reinaldo Stuhlberger

Leia! com Reinaldo Stuhlberger

Quando pequeno, aguardava como toda criança o mês de agosto para receber presentes de aniversário. Sempre havia aqueles amigos de meus pais que me davam livros. Eu pensava que não eram presentes mas castigos. Qual a graça de ganhar livros? Um pouco pior até do que ganhar roupas.  Não me lembro se essas pessoas eram cultas e queriam me educar ou se eram preguiçosas e não queriam ter muito trabalho.

Já mais velho, é um dos meus presentes favoritos. Uma pessoa que lhe dá um livro muitas vezes compartilha com você um gosto próprio e quer que você tenha o mesmo prazer que ela teve, assim como recomendar um filme ou um restaurante. Depois, um sorriso por partilhar a estória pode ser equivalente à discussão sobre um bom vinho.

Ganhei certa vez de uma amiga -que sabia do meu gosto por História- o livro Maria Antonieta, retrato de uma mulher comum (Stefan Zweig ,editora Zahar). Personagens desinteressantes são desagradáveis de ler uma única vez, os polêmicos e importantes que te levam a fantasiar a vida naquela época e, numa situação tão explosiva, te fazem imaginar a vida que essas pessoas experimentavam em situações tão ímpares. Maria Antonieta casou-se, como costume da realeza na época, sem amor e sem conhecer seu futuro marido. Para piorar, o herdeiro Luís XVI era uma pessoa totalmente despreparada seja como futuro rei da França seja como marido ou ainda como adulto. Toda a descrição desses seres tão distantes da população em geral, que viviam em Versalhes para melhor aproveitar a vida e se distanciar dos problemas cotidianos, é interessantíssima. Gente diferente normalmente rende estórias ótimas, principalmente uma rainha sem marido presente e sem amigos, enfrentando uma revolução num país estranho. Sendo ela ainda estrangeira, descendente dos poderosos Habsburgos, recebeu a ira da população que a via como uma das principais culpadas dos infortúnios enfrentados. O relato correto e comedido do autor nos faz abandonar a imagem de tresloucada que recomendava brioches aos esfomeados, mas nos dá a real dimensão da alienação de muitos integrantes da realeza que governavam vários países. Que providencial a existência de parlamentos e ministros nas monarquias atuais. Talvez o príncipe Harry tenha agido acertadamente.

Reinaldo Stuhlberger (whatsapp 97622-6185) adora literatura e cinema. É engenheiro, faz windsurf, bicicleta e vai comentar as suas leituras conosco.

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