Leia! com Reinaldo Stuhlberger

Leia! com Reinaldo Stuhlberger

Plataforma, Michel Houellebecq, editora Alfaguara, 301 páginas
Por volta do ano 2000, li numa crítica de jornal que um escritor francês tinha lançado um livro questionando nossa forma de viver, a globalização, o multiculturalismo e outros. Era um livro de ficção, o que logo me atraiu pela diversão da leitura, mas que subliminarmente tratava de questões então atuais, e que estava vendendo muito na Europa.

Com o passar dos anos e já fā do escritor, percebi como todos os leitores que seus livros -além de tratarem de temas espinhosos- não têm qualquer concessão ao bom-mocismo em que vivemos. Tampouco são agressões idiotas como vemos muitos políticos praticarem atualmente. Suas estórias tão polêmicas, além de suas entrevistas, fizeram-no ser conhecido como “enfant terrible” no meio cultural. Suas posições não são fáceis de manter. Já precisou esconder-se devido a ameaças de assassinato. Questiono constantemente seus livros, quero sempre pensar diferente do que ele escreve. Mas o interessante é buscar lá no fundo e dar-lhe um mínimo de razão, o que às vezes nos dói demais.

Michel Renault, já na sua meia idade, funcionário público, divorciado, perde o pai e resolve fazer uma viagem à Tailândia, terra do sexo livre e sem culpa. Descobre um parque de diversões do tipo que nossa moral, nossos costumes e nossos dogmas religiosos não permitem. Suas saídas diárias com jovens prostitutas o levam a perceber quantos anos foram perdidos com costumes ocidentais. Agora quase nada mais importa, exceto voltar à Tailândia buscando a diversão plena. Quando então, ocorre um atentado terrorista e Michel vai questionar a globalização e o multiculturalismo que vêm atrapalhar seu prazer e a forma de vida idílica. A leitura é muito fácil e prazerosa e, se não nos ativermos, podemos pensar somente em um livro de ficção sem qualquer conteúdo mais profundo embutido. Quase como ler a revolução dos bichos sem pensar em uma crítica ao comunismo.

Como vários de seus livros, o personagem principal está bem desiludido com a vida que vem levando, e novos fatos vão fazê-lo mudar para melhor ou para pior. O mais curioso é que certos fatos ficcionais tornaram-se realidade em poucos meses após o lançamento dos seus livros, fazendo o escritor parecer vidente de uma situação que só ele percebe. Foi assim com o ataque às torres gêmeas de Nova York por grupo religioso questionando todo o mundo ocidental, com os protestos dos coletes amarelos na França então insatisfeitos com sua posição cada vez mais rebaixada de classe média, com a eleição de um presidente muçulmano radical na França, que vai mudar pouco a pouco todos os costumes ocidentais, como única opção ao outro candidato da direita radical do partido da frente nacional.

Não vivemos isso aqui no Brasil nas últimas eleições? Não nos parece que vamos viver novamente essa situação nas próximas eleições?

Reinaldo Stuhlberger (whatsapp 97622-6185) adora literatura e cinema. É engenheiro, faz windsurf, bicicleta e vai comentar as suas leituras conosco.

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