LEIA! COM REINALDO STUHLBERGER

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Numa dessas viagens de velejo no nordeste do Brasil, fui com um amigo frequentador de Ilhabela, não tão próximo mas muito divertido. Passar cinco ou seis dias juntos por 24 horas faz com que nos conheçamos muito melhor do que o contato com a duração de um jantar. Sempre digo que tenho saudades da época de jovens em que combinávamos de ir um na casa do outro sem saber para quê. Na hora inventávamos os programas, bastava estarmos juntos para ser divertido. Depois de mais velhos precisamos de uma razão para nos encontrar, seja um esporte, um almoço ou um filme. Terminado o motivo principal, percebemos que não tivemos tempo para conversar sobre assuntos pessoais.
O Marcos, vendo que eu gostava de ler, contou que não conseguia se concentrar numa leitura de ficção. Num fim de tarde, veio me mostrar a quantidade de alemães, poloneses, ingleses e franceses, velejadores como nós, que estavam reunidos em silêncio completo numa choupana da praia, cada um com seu livro, após terem praticado o hobby que tanto gostam. 

No intuito de tentar ajudar o Marcos a descobrir um pouquinho deste prazer, contei duas passagens do livro Vale tudo, O som e a fúria de Tim Maia, de Nelson Motta (Editora Objetiva, 392 páginas). O filme com partes da história contido no livro ainda não tinha sido realizado. Vendo como ele se divertia, disse que tinha certeza que, se começasse a ler, conseguiria ir até o fim.
A vida de Tim Maia não teve nada de normal. Quando lemos parece um livro de ficção tamanha a quantidade de situações absurdas e engraçadas. O filme tem uma abordagem muito mais soturna. Embora eu não goste da transformação de assuntos reais em comédias, neste caso o livro é muito superior, seja na abordagem seja nos detalhes, como sempre em muito maior número. Vou dar alguns spoilers, mas a quantidade de situações bizarras é tão descomunal que não fará qualquer diferença. O lívro tem centenas. Aqui vão algumas: na infância Tim Maia ajudava no orçamento de casa entregando marmitas (iFood ?). Como já era um glutão, sentava-se em algum banco de rua e comia um pouquinho de cada, assim não haveria reclamação e ele aplacaria a fome. Como Tim Maia não acreditava em cheques, comprava seus carros com maletas de dinheiro. Numa batida policial de rua, deixou seu carro para o guarda e saiu caminhando. Não valia a pena discutir tamanha a quantidade de multas em valor maior do que o veículo. Construiu uma casa num novo terreno é só depois percebeu que tinha construído no terreno vizinho, que logicamente não era seu. O projeto da casa, depois de idas e vindas, ficou por conta dele. Quem tudo conta é seu grande amigo e escritor do livro, Nelson Motta, a quem Tim chamava sempre de ô, nelsonmotta….assim mesmo numa palavra só. Claro que as situações tristes como seus vícios pesados e sua carência afetiva têm um tratamento mais leve por opção do autor e amigo.
Resumindo, há tanto a contar, tanto para apreciar no livro que só nos resta lamentar sua partida tão precoce. Pena que passei a admirar mais sua música já bem mais velho. Gostaria de ter ido a um show, só não sei se aguentaria aguardar duas a três horas pelo início. Era o prazo usual de atraso pois o preparo à base de whisky, maconha e cocaina, levava bastante tempo. 
Faz muito tempo que não vejo o Marcos. Quando lhe perguntei, um ano depois da nossa viagem, ele ainda não tinha lido o livro. Acho que até hoje ele nao comprou o livro. Azar o dele. Teria muito para se divertir. 

Reinaldo Stuhlberger (whatsapp 97622-6185) adora literatura e cinema. É engenheiro, faz windsurf, bicicleta e vai comentar as suas leituras conosco.

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