LEIA! COM REINALDO STUHLBERGER

LEIA! COM REINALDO STUHLBERGER

Incentivar uma criança a ler livros não é uma tarefa nada fácil. Fico lembrando de meu pai tentando me incutir esse gosto nos anos 70, quando tudo que eu tinha gostado de ler até então eram os livros infantis  de Monteiro Lobato e os de Júlio Verne. Muito embora eu não tivesse celular, dispunha de um campinho de futebol ao lado de minha casa, um primo da minha idade para todos os momentos e seu irmão cinco anos mais velho com seus vários amigos. Não era fácil ficar em casa sozinho concentrado na leitura. Como já falei nessas colunas, só descobri tal prazer após os 20 anos. Mesmo assim, a TV sempre  é uma saída fácil para os dias pesados após o trabalho. Tenho deixado minha casa em Ilhabela sem rede de celular nem TV a cabo, pois lá a intenção é ler ou sair de casa e nunca estou cansado, pelo menos mentalmente.  Quem reclama então é minha esposa, mas assim a leitura flui muito melhor. 

Lembro de uma estória curiosa do ginásio quando a professora listou cinco livros para escolhermos um e comentou um pouco sobre cada qual. Espertamente interessei-me pelo último quando ela disse que bastaria ler o conto Urupês de Monteiro Lobato com somente dez páginas contido no livro do mesmo nome. Iniciei a leitura no dia anterior à prova, já que eram só dez páginas. ‘Esboroou-se o balsâmico indianismo ao advento dos Rondons que ao invés de imaginarem índios num gabinete com reminiscências de Chateabriand metem-se a palmilhar sertões. Morreu Peri…’.

 Memorizei de tantas vez que li sem nada entender. Esperei meu pai chegar à noite para me explicar. Ele tentou mas logo desistiu, questionando-me porque a professora deu esse livro para crianças. Fiquei mudo. 

Na manhã seguinte pedi a um amigo para me contar sobre o livro que tinha lido para que eu não tirasse zero. 

Tenho me saído medianamente no quesito de leitura com meu filho (acima, na foto) mas vejo que, quando ele descobre um de seu interesse, busca por novos parecidos.  Levo-o ao cinema para ver filmes mais profundos quando minha esposa não reclama, E assim vamos discutindo alguns assuntos não superficiais. Às vezes ele se chateia com alguns, mas sei que sempre está aprendendo algo. Sinto que ele tem uma boa cultura geral e acredito que eu tenha uma pequena influência nisso.

Já vi tantos filmes americanos e franceses do tipo ‘Ao mestre com carinho’ que sempre me pergunto como não aparecem na vida real parentes do Sidney Poitier ou da Michelle Pfeiffer que resolviam tão bem esse assunto nos seus filmes. 

Só no 1º colegial, já com 14 anos, tivemos um professor de português que dava aulas de literatura ao invés da ininteligível análise sintática, bem mais complicada que mecânica quântica.  Aprendi muito com as aulas do Jorge Miguel, tanto em literatura quanto em história, que gostaria de lhe agradecer mas provavelmente só no cemitério. Ele nos falava como o mundo mudava no decorrer dos séculos contando-nos sobre classicismo, barroco, renascimento, modernismo, e como essas mudanças influenciavam inclusive os estilos e assuntos na literatura. 

Professores para alunos ainda crianças que captem o interesse destes,  que vibrem com eles a cada semana com novas descobertas, que discutam os capítulos semanalmente, devem ao meu ver ter algum sucesso. 

Lembro que no ginásio lemos dois livros que me marcaram: Os meninos da rua Paulo e o Gênio do crime. O primeiro se passava pelo menos 30 anos antes daquela época em que vivíamos, com assuntos que não nos dizia qualquer respeito. Ninguém gostou. Toda a classe adorou o segundo, já que tratava de uma estória a respeito de figurinhas que comprávamos em bancas e que todas os meninos colecionavam. Comentávamos o livro no recreio!!

Com o interesse despertado, os assuntos iriam mudando mas sempre tentando agradar. Também não é necessário que toda a classe leia o mesmo livro, formar grupos de oito ou dez alunos não atrapalharia em nada. 

Eu deveria juntar-me a um desses grupos que escolhem um livro mensalmente e depois se reúnem para comentar. Não sei por que ainda não o fiz. Talvez tenha medo que escolham Urupês. 

Reinaldo Stuhlberger (whatsapp 97622-6185) adora literatura e cinema. É engenheiro, faz windsurf, bicicleta e vai comentar as suas leituras conosco.

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